Assim como eu, sei que você gosta muito dele. Mais do que gostar, curtimos por ele um amor incondicional. Nem poderia ser diferente, ele é a razão do nosso viver e, sem ele, a vida seria um abacaxi ainda pior. Na nossa lista preferencial, ele é sempre o primeiro e, na mesa de todos os dias, é para ele que servimos o melhor filé. Para evitar confusão, sabe quem é esse felizardo? Estou falando do cara com quem damos de cara no espelho de todas as manhãs. Ele mesmo, o nosso salve, salve e idolatrado "Ego". "Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim" diz o rock. Fiquemos tranquilos, nenhuma crítica merecemos, o autoamor é perfeitamente natural, mais um truque da natureza estrategista para preservar a espécie.
Por outro lado, temos motivos para intranquilidade. Esse cara amado, que é a gente mesmo, tem problemas seriíssimos, muitos deles incuráveis. Exatamente por isso, antes de desconfiarmos de qualquer pessoa, desconfiemos de nós mesmos. Olha que belo exemplo nos deu Ulisses por desconfiar de si mesmo. Ao ouvir, ao longe, o canto das sereias, imediatamente ordenou aos tripulantes da embarcação que o amarrassem, o mais fortemente possível, ao mastro central e lhe tampassem os ouvidos com cera. Exigiu mais: se mesmo amarrado, ordenasse aos berros que o soltassem, não o atendessem de modo algum. Ao contrário, apertassem, ainda mais, a corda e os nós. Ulisses sabia que não resistiria à cantada da sereia e, quando tentasse o beijo impossível, seria engolido por ela. Se isso aconteceu com o mais valente e ardiloso guerreiro da epopeia grega, fico imaginando o que não anda acontecendo com essa homarada, desamarrada (excetuando eu e você, caro leitor), que se entrega fácil a qualquer cantada, de qualquer mulher, nada sereia, nada bonita, uma mulher nada, uma saia qualquer?
Pobres mortais, somos assediados a todo momento pelos mais diversos cantos de sereia e, muitas vezes, sucumbimos. A cabeça insiste que não, mas as pernas surdas obrigam o pobre coitado a beber a cachaça, que tanto queria evitar, no boteco da esquina. Ao lado da clínica de emagrecimento, a doceira abre alegremente a confeitaria, confiante na vitória do pudim. Já por muito tempo, dividem a mesma gaveta, o remédio para deixar de fumar e o maço de cigarros. Depois de tantas juras e tentativas, lá está ela, mais uma vez - agora diz ser a última - ao lado do canalha que nem pintado de ouro está. Como se vê, não dá pra gente confiar na gente, pisamos firme com a perna direita, mas a esquerda manca. Cada um de nós cuida do próprio naufrágio.
Desconfie de você, que eu mim desconfio, afinal somos feitos do mesmo barro. A maior mentira é aquela que contamos para nós mesmos e, pior, nela acreditamos piamente. Pensamos que estamos agindo por impulsos nobres, mas o que nos move é o egoísmo mais rasteiro. Se por incompetência fracassamos, a frase esparadrapo vem logo nos socorrer: melhor assim, as uvas estavam verdes. Nosso ego é o nosso pior inimigo. Tão imenso ele é que não deixa espaço mínimo dentro da gente para acolher nosso irmão. Egoísta e autofágico, ele nos impede de amar o outro. E tem mais, ele se esconde e se disfarça atrás de tantas máscaras, que a vida virou um imenso baile de máscaras, ninguém sabe mais com quem está dançando. Ainda assim, vem a cobrança impossível: "Conhece-te a ti mesmo" Como? Se fujo de mim? Se minto para mim? Se me engano em tudo que penso e faço. Melhor fez Goethe: "Conhecer a mim mesmo de que me haveria de servir? Se a mim me conhecesse, desataria a fugir!" Fui.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais