Dados dos boletins divulgados pela prefeitura mostram que, há quatro semanas consecutivas, Bauru vive alta na média móvel de casos de Covid-19. Entre 3 e 9 de maio, última semana calculada, a taxa chegou a 221 novos registros por dia, o maior número já registrado em toda a pandemia (veja mais no quadro). Para o infectologista da linha de frente Taylor Endrigo Toscano Olivo, o aumento sequencial de casos, assim como o recorde desta última semana, são fortes indícios de que a cidade enfrentará um terceiro pico da doença em breve.
"Estamos no 'gap', intervalo. Dizemos que o tsunami vem, perde força, mas volta por causa do relaxamento. Claro que há necessidade de abertura comercial, mas, se a população não agir agora, com responsabilidade e tomar mais cuidados, nós teremos um cenário tão ruim quanto, ou até mesmo pior, do que o pico anterior", avalia Taylor Olivo.
Ele prevê que um novo impacto na lotação dos leitos, especialmente de UTIs, possa ocorrer dentro de aproximadamente três semanas, se o ritmo atual de retransmissão não for freado. "O foco das pessoas deveria ser o número de casos novos, porque é o que vai refletir na ocupação das UTIs. Em dezembro, quando houve indícios de um segundo pico, o índice de ocupação nas UTIs era em torno de 70%. E, hoje, nós já estamos com taxa de ocupação de 100%. Ou seja, o número de mortes pode ser maior se o novo pico ocorrer", observa o infectologista.
MAIS JOVENS
Bauru possui 70 leitos públicos de UTI Covid, sendo 60 no Hospital Estadual e 10 no HC.
Embora as UTIs estejam cheias, as enfermarias não têm superado 80% de ocupação há semanas. Tanto Taylor quanto outros infectologistas ouvidos pelo JC acreditam que as restrições ajudaram a diminuir a ocupação dos leitos menos graves.
Já a lotação das UTIs seria provocada pelo mesmo motivo que pode tornar pior um possível terceiro pico: a maior quantidade de pessoas jovens internadas. Resistente, este público "interdita" os leitos por mais tempo. Isso porque o tempo médio de internação em UTI Covid-19 de pessoas com faixas etárias menores costuma ser o dobro do que o de idosos, que é entre 7 e 10 dias.
"O organismo de pessoas mais jovens resiste mais à Covid-19, o que aumenta o tempo de internação. E, diferente da segunda onda, quando a ocupação das UTIs variava, temos, agora, uma taxa que se mantém acima dos 100%", aponta Taylor. "E os pacientes que já estão intubados demoram para sair dos aparelhos, porque possuem infecção associada, ou estão no pós-Covid, já que a fraqueza muscular dificulta a retirada do ventilador mecânico, ou por causa de outras complicações que tiveram durante a doença".
E A VACINAÇÃO?
Bauru tem, atualmente, 85 mil vacinados, mas só 48 mil com a segunda dose completa. Para Taylor, ainda não é possível falar em efeito da vacina. "Observamos, entre os mais idosos e profissionais da Saúde, a redução de internações, mas muita gente entre 60 e 70 anos ainda não completou o esquema vacinal. E a população abaixo de 65 anos, que é a maior parte, também ainda não foi imunizada, e é quem deve impactar o sistema de saúde daqui para frente".