Geral

2.ª onda de solidariedade mostra o bem como essencial à vida coletiva

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Com a segunda onda da pandemia da Covid-19, um novo e grande movimento surgiu em Bauru para ajudar a população mais afetada pelas restrições impostas pelo atual cenário. Tanto que, diariamente, a imprensa recebe diversos pedidos para apoiar campanhas organizadas por entidades assistenciais, cooperativas, coletivos, organizações não governamentais, empresas e até pessoas comuns interessadas em contribuir com aqueles em situação de vulnerabilidade social. O fenômeno mostra que o bem está presente na sociedade. Trata-se, inclusive, de um tipo de comportamento necessário à vida coletiva e individual, segundo estudiosos.

A professora de História Sonia Mozer cita o psicólogo canadense Steven Pinker, que escreveu o livro "Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu", para justificar a tese. "A obra mostra que, quando você encontra fósseis humanos de 50 mil anos atrás, a aparência de morte violenta é maior do que naqueles de 5 mil anos. Nós estamos, gradativamente, abrindo mão da violência em prol da vida coletiva, que também garante a segurança individual", pontua.

Mozer destaca, ainda, a visão da antropóloga norte-americana Margaret Mead, para quem fósseis humanos encontrados indicam um processo civilizatório. Isso por conta do fêmur quebrado e cicatrizado. "Tal fenômeno evidencia que os homens se machucaram, mas receberam ajuda do grupo até se recuperar", explica.

Ainda segundo a professora, há diversas passagens na história da humanidade que exemplificam a tese da união em prol do bem comum. "Na Bíblia, consta que os hebreus e outros povos agricultores tinham o costume de reservar uma parte da colheita às viúvas", observa.

Mozer também comenta alguns exemplos da história mais recente da humanidade. "Na 2.ª Grande Guerra Mundial, época em que a Inglaterra era bombardeada diariamente pelos nazistas, a sua população tinha a solidariedade de escavar os escombros para socorrer os feridos e abrir as ruas para garantir a fluidez do tráfego", descreve.

NO PAÍS

Na história do Brasil, também há passagens neste sentido. "Um pouco antes da abolição da escravatura, os chamados jangadeiros do Nordeste se recusaram a transportar escravos, porque se diziam contra o regime, mesmo dependendo dele para garantir o seu sustento", narra.

Porém, a estudiosa contrapõe que, em determinados momentos, o que há de pior na humanidade vem à tona. "Geralmente, quem tem tendências à intolerância pertence a um grupo minoritário que acaba cerceado pela maioria. Entretanto, quando surge um líder que estimula o ódio, os seus adeptos se sentem à vontade para praticá-lo", ressalta.

Ainda de acordo com a professora, este foi o caso do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália e do genocídio dos hutus contra os tutsis em Ruanda, no continente africano.

Questionada sobre o pensamento do iluminista Jean-Jacques Rousseau, para quem o homem nascia bom, mas a sociedade o corrompia, Mozer diz que o filósofo tinha uma visão extremamente idealizada dos indígenas. "Rousseau alegava que quanto mais próximo o ser humano ficava da natureza mais solidário ele se tornava, mas, até onde eu sei, o filósofo sequer viu um índio de perto", justifica.

Mozer, portanto, prefere a ideia de que a sociedade vem abrindo mão da violência como forma de sobrevivência. Ela encerra a entrevista citando o excerto de Meditação XVII, do poeta inglês John Donne: "A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: por quem os sinos dobram; eles dobram por vós".

Comentários

Comentários