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Pais e filhos resgatam o divertimento

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

Algumas coisas são naturalizadas na relação entre pais e filhos e você começa uma família achando que é só repetir o que os outros já fizeram e vai dar tudo certo. O único pormenor é que maternidade e paternidade não possuem um manual de instrução. Na "seara" das brincadeiras, é preciso aprender o tempo inteiro, isso porque ser criança ficou distante de nossas rotinas. Assim sendo, para cultivar e colher frutos dessa "extensão de terra" que foi quase apagada da memória, é preciso "reaprender" a brincar.

Cristiano Bichara Leal e Vanessa de Medeiros Leal moram no Rio e são pais de Mariana, 10 anos, e de Gabriela, 5, que teve diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em meio à pandemia do coronavírus. "Sempre o 'trunfo' paras as brincadeiras é a Mariana, porque ela adora brincar com a irmã. Seguindo com a terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada), a gente vai vendo o aprender a brincar e a se comunicar com a criança", afirma. "Além de ser um período difícil para todos, pois não há como brincar com muitas pessoas, socializando livremente, as crianças com atrasos no desenvolvimento, como TEA e Síndrome de Down, costumam ficar ainda mais agitadas. Por isso, é importante que os pais ou responsáveis mesclem atividades", esclarece a neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto.

Antes de ser diagnosticada com TEA, Gabriela enfrentava problemas na comunicação. Assim que nasceu, teve de passar por uma cirurgia para a retirada de um tumor. Além disso, o teste da orelhinha, responsável por verificar o funcionamento da audição, registrou alteração. "Gabriela usa aparelho auditivo desde bebê, mas a gente começou a perceber que, com 7 meses, ela respondia a alguns sons, porém o aspecto motor não estava respondendo como outras crianças. A gente já tinha a Mariana e é natural que os pais comparem o desenvolvimento de uma filha com a outra na mesma idade. A pediatra sempre falava que cada uma tem seu tempo, mas a gente ficava com a pulga atrás da orelha, né?", lembra Leal.

A mãe é enfermeira e também enfrenta uma rotina de trabalho puxada, sobretudo por causa da pandemia. Mesmo com a correria, Cristiano e Vanessa se engajaram e aprenderam a se comunicar melhor com a filha, que, antes da terapia comportamental, não conseguia olhar para os pais. "Agora ela olha para alguém que quer brincar. Antes, ela não sabia a utilidade, por exemplo, dos blocos de encaixe. Não fazia ideia que era para colocar em um espaço vazio. Ficava com a peça na mão ou brincava arremessando. Agora, sabe brincar. E eu aprendi que tenho que ficar na altura dela, falando de maneira clara, sucinta, para que ela possa entender e cumprir seu papel", diz Leal.

Uma peça do bloquinho de montar encaixada. Um olhar. Um sorriso. O que parece um detalhe para muitos, no desenvolvimento atípico, é uma grande evolução. "Nesses últimos dias, Gabriela passou a reconhecer a irmã, a procurá-la, coisa que não fazia antes. Isso não tem preço", se emociona Cristiano Bichara Leal.

Uma simples interação no mundo da fantasia infantil pode fazer a diferença no desenvolvimento cognitivo das crianças como atenção, memória, raciocínio, resolução de problemas simples do cotidiano e outras funções executivas. "De maneira geral, toda brincadeira é estimulação, pois trabalha os aspectos sociais, comunicativos, motores e cognitivos. Quando a família entende as dificuldades da criança e foca as brincadeiras nos comportamentos-alvo, essas habilidades ficam fortalecidas", explica Bárbara Calmeto.

A neuropsicóloga acrescenta que os pais precisam aproveitar todas as chances de interação. "O banho, as refeições, o parquinho, a hora de dormir, todos esses momentos podem se tornar oportunidades de estimulação", diz.

Se a comunicação com o seu pequenino não está acontecendo da maneira como você esperava, além de buscar o apoio de especialistas, uma simples atitude como sentar no chão, deixar o celular de lado e dar atenção para ele fará a diferença. O ditado popular diz que "ninguém nasce sabendo", mas não explica que criar filhos é um eterno aprendizado, com tentativas, erros e acertos, incluindo o brincar com eles.

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