Regional

"Vacinação em massa em Botucatu balizará ações no mundo", diz Queiroga

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 8 min

"A vacinação é a esperança que temos de conter o caráter pandêmico da Covid-19, e a pesquisa de Botucatu trará respostas não só para o Brasil, mas balizará a comunidade científica mundial." A afirmação é do ministro da Saúde Marcelo Queiroga, que esteve em Botucatu (100 quilômetros de Bauru), na manhã deste domingo (16), para o "Dia D", da vacinação em massa contra o novo coronavírus.

A presença do ministro foi acompanhada por comitiva formada pelo prefeito de Botucatu, Mário Pardini, pelo secretário municipal de Saúde, André Spadaro, pelo embaixador do Reino Unido no Brasil, Peter Wilson, pela professora de Oxford, Sue Ann Clemens, pela presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade, entre outras autoridades da cidade, que reforçaram o ineditismo e importância mundial da pesquisa (leia mais abaixo). Veja também: Botucatu vacina 80 mil pessoas

Botucatu amanheceu com uma megaoperação, que contou com mais de 2,5 mil voluntários, além de forte esquema de segurança que incluiu a Polícia Militar, a Guarda Municipal e o Exército, nos 49 pontos de vacinação. A vacinação em massa, que contempla pessoas entre 18 e 60 anos, começou às 8h e gerou grande movimentação em ruas da cidade logo nas primeiras horas do dia. Para se ter ideia, em apenas meia hora de ação, mais de 2,2 mil pessoas já tinham sido imunizadas.

A primeira delas foi a manicure Glaucia Caroline Torres, de 33 anos, que atuaria como voluntária no "Dia D" e foi imunizada na Escola Cardoso de Almeida, na Praça Professor Martinho Nogueira, no Centro de Botucatu.

Logo após a aplicação, ela recebeu um kit com seis pílulas de paracetamol, que também foi entregue para todos os demais vacinados como forma de aliviar possíveis efeitos colaterais considerados comuns da AstraZeneca, como dores de cabeça, no corpo e febre.

"É um sonho ser vacinada, não sabia que seria a primeira. Só tenho a agradecer e rezar para que a vacina chegue para todos no País", comentou a moradora.

Foi na mesma escola que o ministro Marcelo Queiroga foi recebido por autoridades do município e realizou a segunda aplicação do dia, que abriu simbolicamente e oficialmente o "Dia D" na cidade. A escolhida foi a aposentada Suze Helena Crespam, de 58 anos, que também comemorou a aplicação. "Um grande alívio", resumiu.

Em seu pronunciamento, Queiroga elencou os motivos de a cidade ter sido selecionada para a pesquisa, que conta com parceria do Ministério da Saúde, da Unesp de Botucatu, da Prefeitura de Botucatu, da Universidade de Oxford e da Fundação Bill e Melinda Gates.

"Botucatu foi escolhida por critérios técnicos. Primeiro, porque é uma cidade que tem uma universidade pública de excelência. Segundo, porque tem gestão pública muito reconhecida. Deixo claro que essa pesquisa foi aprovada pelo Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa], o que fizemos foi dar celeridade ao andamento", pontuou.

Prefeito de Botucatu, Mário Pardini reforçou que a campanha originada pela pesquisa com a Oxford/AstraZeneca só foi possível porque Botucatu se preparou desde o início da pandemia. "Viabilizamos tudo para fazer os testes de PCR, para monitorar os casos positivos e contactantes, e isso tudo facilitou que o estudo ocorresse aqui", comentou o prefeito, considerando o “Dia D" como um sonho realizado.

Na mesma linha, o secretário municipal de Saúde André Spadaro, acrescentou que a estrutura e reconhecimento da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu foram cruciais. "Assim como a interação dos nossos pesquisadores com universidade de Oxford e a Fundação Bill e Melina Gates. E o fato de termos laboratórios capacitados para fazer o sequenciamento genético", pontuou.

INEDITISMO E IMPORTÂNCIA

Queiroga destacou ainda a importância da união entre as comunidades científicas do mundo. "É o que precisamos para conduzir a saída do Brasil e do mundo desse ambiente pandêmico", observou.

Embaixador do Reino Unido no Brasil, Peter Wilson classificou como de extrema importância a pesquisa realizada em Botucatu e que é validada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). "É algo muito raro, inédito, e que ajudará o mundo", fechou questão.

A fala foi completada pela professora de Oxford, Sue Ann Clemens, que é diretora do grupo de vacina Oxford-Brasil. "Trata-se do único estudo no mundo com essa magnitude. Vai provar a efetividade dessa vacina contra as diferentes cepas circulantes e o impacto na transmissão. O Brasil tem que ficar orgulhoso em contribuir com dados tão importantes para a comunidade científica internacional", comentou Sue. "Quando o prefeito e o secretário de Saúde de Botucatu nos procuraram, imediatamente a OMS teve o interesse imenso, bem como a Fundação [Bill e Melina Gates], porque não há nenhuma pesquisa no mundo que vá medir o impacto de diferentes cepas e a transmissibilidade. A efetividade da vacina será observada na vida real e o sequenciamento genético será o grande diferencial", completou a pesquisadora.

Segundo ela, existem pesquisas similares em andamento, mas de magnitude menor, na Alemanha, Bélgica e Filipinas. "Eles estão vacinando 3 mil pessoas e em um estudo clínico com situações controladas. Aqui, serão vacinadas mais de 70 mil pessoas. Veremos a efetividade na vida real, o que trará dados novos para a comunidade científica e será muito importante para futuras estratégias em saúde pública", explicou.

Presidente da Fio Cruz, Nísia Trindade agradeceu Botucatu pelo empenho. "A Fio Cruz está muito comprometida com o acompanhamento desta pesquisa e feliz de estar contribuindo para uma solução diante da crise", pontuou.

AMPLIAÇÃO

Sobre a possibilidade de ampliação do estudo para que a vacinação em massa chegue a outros municípios, como Bauru, o ministro respondeu que, até o final do ano, toda a população brasileira será vacinada, se referindo ao contrato firmado com a Pfzier, na última semana, que prevê 100 milhões de doses.

"O Brasil está indo bem na vacinação, estamos entre os 5 países que mais vacinam. São mais de 80 milhões de doses. Poderíamos ir melhor? Claro que sim, mas se tivéssemos mais doses. Mas, teremos o suficiente para imunizar toda a população até o fim do ano", disse o ministro, frisando ainda que o governo federal tem se esforçado para recuperar cerca de 150 milhões de imunizantes junto ao consórcio Covax Facility.

Em seu discurso, Queiroga, admitiu que o País precisa, além da vacinação, incentivar o que chamou de "medidas não farmacológicas", como uso de máscaras e o distanciamento social.

Questionado sobre posturas do presidente Jair Bolsonaro, em não usar máscara durante algumas aparições, o ministro respondeu que "o presidente tem uma determinação forte em apoiar o povo brasileiro". E ressaltou que Bolsonaro lhe concedeu "autonomia para montar uma equipe técnica no ministério".

"Está em estudo no Ministério uma campanha ampla de testagem. Botucatu é um exemplo,por ter testado sua população e acompanhado a evolução dos casos. Por isso, em toda a pandemia, a cidade fez restrição da mobilidade maior em apenas três finais de semana", avaliou Queiroga.

A PESQUISA

A estimativa é de que 70 a 75 mil pessoas, entre 18 e 60 anos, recebam o imunizante em Botucatu neste domingo (o restante do total de 80 mil imunizantes recebidos do ministério ainda terá o destino estudado). Este público será avaliado por um período de oito meses, mas, a partir do 3.º ou 4.º mês de pesquisa, já será possível resultados parciais. A segunda dose da vacinação está programada para meados de agosto, mas a forma como a campanha ocorrerá (se será em um dia só ou não) ainda não foi definida.

VARIANTES

Com objetivo de verificar a capacidade da vacina em reduzir casos, internações e óbitos por Covid-19, o estudo pretende também avaliar a eficácia da AstraZeneca contra as novas variantes em circulação no estado. Queiroga comentou sua preocupação diante da cepa indiana, que resultou no fechamento de fronteiras brasileiras.

Nesta segunda-feira (17), Botucatu iniciará o sequenciamento genético de todas as amostras de pacientes sintomáticos, o que permitirá saber por qual cepa eles foram contaminados.

Para isso, a Unesp de Botucatu já incrementou o número de profissionais em seus laboratórios e a estimativa é de realização de 600 a 700 sequenciamentos genéticos por semana.

"O sequenciamento genético contemplará as 12 cidades do polo Cuesta. O estudo é em Botucatu, mas toda a região se beneficiará", comenta Carlos Fortaleza, idealizador da pesquisa.

Hoje, a P.1 é a variante mais identificada no município, no entanto, o sequencimento é feito em apenas alguns casos.

Apenas pessoas que residem e votam em Botucatu foram vacinadas neste domingo (16). Moradores com essas características, que se cadastraram para a vacinação, mas que, por algum motivo ficaram de fora da ação, serão contatados pela Secretaria Municipal de Saúde para a imunização ao longo da semana.

EM FAMÍLIA

Uma das cenas que chamou a atenção em um dos pontos de vacinação foi a de uma família que, após ser imunizada, comemorou o momento com direito a foto de todos juntos com a carteirinha de vacinação.

"Estamos emocionados, o nosso dia chegou. Esperamos que todas as famílias do Brasil também tenham a mesma sorte", comenta Eliane Sako.

A emoção gerada pelo "Dia D" também tomou a moradora Cibele de Souza, de 54 anos. "Sou muito grata pelo privilégio que tivemos. Só lamento por não ser para todo o Brasil e pelas almas que já partiram",, comenta.

PROTESTO

Durante a vacinação, um grupo formado por estudantes e movimentos sociais protestou pela expansão da vacinação em massa no País. "Estamos aqui para lembrar o morador de Botucatu que a vacina não é passaporte para uma vida normal e que o resto do Brasil existe e ainda está sem vacina", ressaltou Thalita Tavares, 34 anos. O protesto também teve como mote o "fora Bolsonaro".

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