Não é que eles queiram. Acontece. Cena de bar costumeira. Aproveitando a pausa do vinho, a palavra infeliz dele, mas pode ser dela também, escapa e atinge, pedra certeira. Ela, pode ser ele também, se assusta com a ofensa inesperada e o troco é imediato, mas com o dobro da agressividade. Quem recebe a pedrada começará a derrubar, de cima de uma montanha de ódio, todas as mágoas acumuladas. Pronto. Está aberto o barraco. Começou o bate-boca do até então elegante casal, que, agora, se desarruma e se enfeia diante dos olhares curiosos. A cena, visivelmente raivosa, exibe um atropelo nervoso de falas, dedos e mãos, sem qualquer pudor de intimidade. Pouco lhes importa a curiosidade das mesas laterais, em situação de guerra só interessam as reações do inimigo. É preciso contra-atacar.
Cabeleireiro, manicure, maquiagem, vestido especial, o lugarzinho romântico, tudo pra quê? Ele, barba feita, blazer casual sobre calça jeans, também se produzira para uma noite de vinhos e de gastronomia refinada. Mas quem segura a palavra infeliz? Uma só, desnecessária a segunda, é o bastante para, num golpe só, estilhaçar a torre dos cristais equilibrados. Tanto investimento na produção da noite amorosa para tudo ruir sem a mínima chance de conserto. Por que incidentes assim são tão frequentes entre namorados?
Intuitivos, alguns casais cuidam de ter a companhia de outro casal, sabem que a mesa a quatro pessoas lida melhor com a boca atrevida. Elas falam de tudo, sobretudo do que faz bem à alma feminina; eles fazem a bola rolar do futebol à política, às vezes falam de negócios e de tudo mais que puder ser assunto diante de suas companheiras. Uma noite assim, claro, garante a paz dos casais, mas passa muito longe de uma encantada noite de namoro.
Por que namorar é tão difícil? A mínima desatenção, uma palavra impensada, um silêncio prolongado, um olhar dissimulado na moça ou no moço lindo que passa, qualquer coisa, por menor que seja, avinagra o vinho e desqualifica o cardápio.
Por que o amor exige tanto dos amantes? Por que o fio do arame insiste em ser corda bamba? Entre tapas e beijos, é preciso encontrar o equilíbrio, pois a queda se anuncia na insegurança de cada passo. Por que, volto a perguntar, o amor exige tanto dos amantes, sobretudo dos jovens casais? Sim, eis o detalhe importante: quanto mais jovem é o casal, maior a possibilidade de protagonizarem cenas agressivas assim. É que jovens amantes são movidos pelo mesmo fogo abrasador que os une e os separa. Na linguagem passional dos corpos jovens, tudo pode acontecer. Do nada, um beijo apaixonado ou uma palavra-pedra de ferir. Bem o dizem os versos camonianos, o amor é feito da convivência dos contrários: "um fogo que arde sem se ver", "uma dor que desatina sem doer".
Casais de velhos companheiros já não correm tanto risco assim. Desentendimentos, claro, também existem entre eles, mas não ao ponto de duelarem tão ostensivamente numa mesa de bar. O tempo do longo convívio se, por um lado lhes abrandou a chama dos corpos, por outro, compensou-os com a serenidade da convivência sem sobressaltos. O tempo dá ao amor e a tudo o que existe um jeito diferente de ser. É pela idade que as coisas se explicam. O amor também envelhece e mais sereno fica.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais. curso_romag@uol.com.br