Para tentar conter a crescente escalada dos preços, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central elevou novamente a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 4,25% ao ano, nesta quarta-feira (16). A alta havia sido sinalizada pela autoridade monetária na reunião anterior, em maio.
A Selic voltou ao patamar em que estava até 18 de março, quando o Copom começou a cortá-la em reação aos efeitos da pandemia sobre a economia.
No comunicado, o BC sinalizou nova alta na mesma magnitude para a próxima reunião, em agosto, para 5,00%. O Comitê, contudo, não descartou uma elevação ainda maior caso as expectativas do mercado para a inflação - especialmente de 2022 - continuem subindo.
"Uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante pode exigir uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários. O Comitê ressalta que essa avaliação também dependerá da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e de como esses fatores afetam as projeções de inflação", disse o texto.
O BC mudou a avaliação sobre até que patamar a Selic deve subir e afirmou que levará a taxa básica até o nível considerado neutro, que não estimula nem contrai a economia. Nas reuniões passadas, a avaliação era que a atividade ainda precisava de estímulo e que esse ajuste seria parcial, ou seja, abaixo da taxa neutra.
"Esse ajuste é necessário para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação. O Comitê enfatiza, novamente, que não há compromisso com essa posição e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação", afirma o comunicado.
Atualmente, a taxa de juros neutra gira em torno de 6,5%.
Mais uma vez o BC afirmou que o choque inflacionário é temporário, mas reiterou que a persistência da alta de preços segue maior que o esperado, sobretudo entre os bens industriais.
"Adicionalmente, a lentidão da normalização nas condições de oferta, a resiliência da demanda e implicações da deterioração do cenário hídrico sobre as tarifas de energia elétrica contribuem para manter a inflação elevada no curto prazo, a despeito da recente apreciação do real."
No comunicado, o BC afirmou estar "atento à evolução desses choques e seus potenciais efeitos secundários, assim como ao comportamento dos preços de serviços conforme os efeitos da vacinação sobre a economia se tornam mais significativos".
A decisão veio em linha com as expectativas do mercado. Em levantamento feito pela Bloomberg, todos os economistas consultados projetavam a elevação.
ALTA DE 1 PONTO PERCENTUAL EM AGOSTO
Para o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, não houve surpresa na decisão.
"Também em linha com o esperado o BC tirou o termo parcial do ajuste monetário, sugerindo que a taxa Selic será conduzida para o patamar tido como neutro em seu ciclo. Ainda que a autoridade tenha afirmado que não se trata de um compromisso, esses fatores serão precificados amanhã", afirmou.
O analista diz acreditar que o BC abriu caminho para uma elevação de 1 ponto percentual na próxima reunião, mas manteve a projeção de que a Selic será elevada em 0,75 ponto em agosto e chegará a 6,5% antes do fim do ano. Ele avalia que a taxa permanecerá neste patamar até o fim de 2022.
O economista da Messem Investimentos Gustavo Bertotti afirmou que o BC se mostrou mais preocupado com a inflação em relação aos comunicados anteriores.
"É uma postura 'hawkish' [mais incisiva na alta de juros] que contribui para ancorar as expectativas para 2022 e também na pressão sobre os preços. Tudo isso se justifica na recuperação [econômica] e na revisão das expectativas, além da aceleração da vacinação e do afrouxamento de medidas de restrição", disse.
João Beck, economista da corretora BRA, considera o comunicado mais duro que os anteriores.
"[O Copom] Retirou a expressão de ajuste parcial e também não passou a mensagem de que o país exige níveis estimulativos de juros, justamente para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação", destacou.