Tudo que guardamos e passamos em nossa trajetória está arquivado em nossas memórias e nas marcas que o tempo se encarregou de tatuar em nossa pele. Cada ruga ou cicatriz nos remete a alguma história. Cada indivíduo carrega tais lembranças de forma particular. Esse é o caso dos bailarinos, que carregam sua história de vida incrustadas no próprio corpo.
O que dizer de uma artista que já conta 45 anos de carreira e que ainda hoje se renova e transborda alegria em poder passar aos mais jovens a sua experiência? Apesar de aposentada dos palcos, Ana Botafogo, 63 anos, não se distanciou de sua arte. A brasileira de renome internacional une seu conhecimento com a São Paulo Companhia de Dança (SPCD), para a qual preparou a remontagem da coreografia clássica Les Sylphides (Chopiniana), junto com Inês Bogéa, e que será apresentada entre hoje e domingo (20), no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com público presente, mas também com exibição online ao vivo.
Dedicada ao mundo da dança clássica, Ana Botafogo conquistou o público com sua atuação em inúmeros espetáculos, como "Giselle", "O Lago dos Cisnes" e tantos outros.
Ainda bem jovem, Ana Maria Botafogo Gonçalves Fonseca seria surpreendida, em 1981, ao ser aceita como primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio, cargo que ocupa até e hoje. Segunda ela, as grandes companhias de balé costumam ter várias primeiras-bailarinas e bailarinos, o que também ocorre por aqui. "Eu me juntei a grandes nomes que já estavam no Municipal como primeiras-bailarinas", afirma a dama dos palcos. "Estavam ali, quando entrei, nomes como Nora Esteves, Cristina Martineli, Alice Colino. Depois de mim, entrou Cecilia Kerche. Juntas, nós assinamos a direção do Corpo de Baile do Municipal", relembra Ana, que completa dizendo que há, também, homens ocupando esse posto.
Curiosidades como esta, entre tantas outras, estão nos passos dados por Ana Botafogo nessa sua longa trajetória. Ainda criança, ela começou a dar suas primeiras piruetas e, com apenas 11 anos, estava experimentando a emoção do palco. Foi assim que se lançou ao mundo, passando um período na França, de onde retornaria para ocupar lugar de destaque no Municipal do Rio.
Nessa trajetória consagrada, com premiações nacionais e internacionais, Ana Botafogo não se limitou à dança e se arriscou como atriz ao participar da novela "Páginas da Vida", de Manoel Carlos, em 2006.
Mas a sua vida é a dança e dela não se distanciou, agregando inúmeros trabalhos que a colocaram em um patamar diferenciado, ao lado de outros grandes nomes. "A dança sempre foi minha vida, não me lembro da minha vida sem a dança", reflete Ana, que revela ter um livro de memórias vindo aí, com lançamento previsto para o segundo semestre.
Entre seus incontáveis trabalhos nas pontas dos pés, Ana teve a possibilidade de estar ao lado de bailarinos também renomados, como Fernando Bujones, Júlio Bocca e Richard Cragun, para citar alguns. Experiente, Ana revela profundo conhecimento sobre o balé clássico. Tanto é que esse espetáculo com a SPCD veio também por ela mesma ter dançado Les Sylphides diversas vezes.
"Tive oportunidade de dançar esse balé não só aqui no Rio, mas também tive um convite para fazê-lo em Londres, no Royal Ballet", afirma. Segundo a bailarina, ela contou com a importante ajuda de uma profissional gabaritada para atingir essa visibilidade. "Fui muito preparada por uma pessoa que entende dessa coreografia, a grande mestra do balé nacional e mundial, a dona Tatiana Leskova", enfatiza Ana "Ela montou muitas vezes e também teve a oportunidade de dançar esse balé", afirma.
SERVIÇO
São Paulo Companhia de Dança - Temporada 2021 no Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 153 - Bela Vista, SP). O endereço online é http://www.youtube.com/AudiovisualSPCD e http://www.culturaemcasa.com.br