Articulistas

Aprendiz de vida

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Cuidava das atividades da igreja. Sozinha, esticada em cruz na cama, me aconchego no canto, bem em frente ao espelho que verticaliza por completo o que minha roupa cobre. Acaricio meus peitos levemente que arrepiados confirmam lembranças que me vestem de saudades quentes; do jovem que tentou me beijar num carinho agradecido; do homem que assumiu o governo da minha boca inquieta; do ser habilidoso - este eu me lembro bem - que soube inaugurar meu corpo com a gentileza insuspeitada das mãos; do ser atencioso de paquera prestante que serpenteava com seus dedos os entornos do meu pescoço, soprando suave em meu ouvido um hálito retido de menta, coisas boas, à toa ditas à meia luz, falo de noites! No dia seguinte, com pressa por uma prece, afastava isso de mim.

Teve um que me chegou como quem chega do lar; trouxe um pedido pra eu dizer na hora de transar; "Diz que me ama"; eu - é lógico - cobrava mais caro pra realizar. Teve outro, como posseiro que invadiu minha excitação; paciente nada disse, nada pediu, fez amor com meus lábios desenhando em minha pele movimentos de rotação. Como um trabalhador à espera de sua recompensa, ensaiava um tesão ruborizado; o pagamento até valia a pena. Enquanto me pegavam pela frente e por trás, eu deitava meu fingimento a todos com meus gemidos interjetivos fazendo-os vaidosos do que não possuíam. Ah!, os prazeres, sem dúvida, moram na infração.

Assim tem sido esse meu outro eu, o meu retrato não revelado incompreendido pelas minhas memórias rasgadas de cetim. Um eu, espiritual, pastoreia, guia, jejua, levanta e deita em prece; o outro - puta que pariu - escandaliza o corpo transformando-o um templo repleto de visitas. E nessa ferida que sangra e se recusa a ataduras, um eu legisla não para atacar o erro, e sim para repousar feliz ao lado do acerto; o outro, carnal, de desejo maciço e permanente, escandaliza crente de que o pecado nos humaniza. Também, da inocência muda que se perde uma vez na vida, a da humanidade perdida foi nas linhas iniciais da Bíblia. Sei o que busco, melhor, sei o que quero; por isso, meu outro eu declara alegria postiça selfiada nas redes sociais.

No apartamento, aguardo, uma vez mais, a vontade ereta de mais um cliente. O batom, vestido decotado e mais uma noite de corpos, vinho, resfolegando em busca de todos os cios. Triste é saber que esse outro eu já nada espera. Pudera! Muitos homens entram em minha vida tão rapidamente quanto saem. Alguns me prometem... Mentira!

Antes, alimentava um sonho incorrigível; queria ser uma bailarina para poder brincar de fabricar sapatilhas enfeitadas de esperança; queria sorrir sem carregar no rosto o riso obrigatório das revistas; abrir-se na hospitalidade da janela que espera manhãs, da porta que aguarda chegadas, dos portões que recepcionam carteiros, das mãos que anseiam por afetos, das pálpebras que acolhem os dias, da boca que espera por palavras, do amor - sempre ele - que espera inexoravelmente inabalável o seu igual; mas justamente eu, com uma vida inteira pela frente, esfaqueada por trás.

Passada a cirurgia, de cadeira de rodas, deveria ter mentido sobre mim. Minha nudez ofendeu demais quem tentei ser.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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