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Ciência avança para responder por que a Covid-19 leva à morte

FolhaPress
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São Carlos - Pouco mais de um ano e meio depois que os primeiros casos de Covid-19 começaram a ser detectados na China, uma explosão de pesquisas tem ajudado a esclarecer boa parte dos mistérios acerca da doença. O retrato que emerge desses estudos é o de uma enfermidade complexa, capaz de afetar diferentes órgãos e com potencial para desencadear efeitos graves em pacientes de qualquer faixa etária ou condição física, embora a probabilidade de mortes ainda seja bem maior para idosos e pessoas com problemas crônicos de saúde.

Os vários tipos de coronavírus que afetam seres humanos normalmente atacam apenas ou principalmente o sistema respiratório. Nesse ponto, o vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19, difere de seus parentes pela frequência e pela gravidade dos sintomas que é capaz de causar fora dos pulmões, explica Marisa Dolhnikoff, professora da Faculdade de Medicina da USP.

Uma das razões para esse efeito sistêmico (ou seja, generalizado) é o receptor ou "fechadura" química usada pelo vírus para invadir as células humanas. Trata-se de uma molécula designada pela sigla ACE-2 ou ECA-2 (em inglês ou português, respectivamente), que está presente nos mais variados tecidos e órgãos, deixando-os abertos à influência direta do invasor viral.

A pesquisadora da USP, que tem estudado as lesões nos órgãos de pacientes que morreram por Covid, aponta que, além disso, o vírus costuma infectar células endoteliais, ou seja, as que revestem o interior dos vasos sanguíneos, o que facilita a disseminação do Sars-CoV-2 por meio deles. Os danos causados pelo patógeno em tais vasos podem levar a problemas no abastecimento de sangue em diversos órgãos, e o vírus é capaz de desencadear uma reação inflamatória sistêmica, também com efeitos espalhados pelo corpo.

O descontrole nos processos inflamatórios, com a produção exagerada de moléculas ligadas a esse mecanismo, provavelmente está por trás de alguns dos casos mais graves de Covid. Com isso, nem sempre a morte do paciente ocorre pelas dificuldades respiratórias causadas pela infecção, mas por vezes acontece também por problemas cardíacos, renais e de coagulação do sangue.

Levando em conta todos esses efeitos associados ao uso do ACE-2 pelo vírus, faz sentido que pessoas com problemas cardiovasculares (hipertensão, doenças do coração), renais e diabetes estejam entre as que correm mais risco de complicações quando contraem a doença. São problemas nos quais o estado dos vasos sanguíneos e a presença de processos de inflamação desempenham papel importante. A frequência desses males também tende a ser mais alta conforme aumenta a idade e quando a pessoa é do sexo masculino, o que ajudaria a explicar a maior incidência de formas graves da Covid em idosos e homens.

Outro fator de risco, identificado numa pesquisa publicada em abril por pesquisadores brasileiros, parece ser a presença de doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer. "Um fator importante para a progressão de Alzheimer é a disfunção dos vasos sanguíneos que irrigam o cérebro. A nossa hipótese é que essa disfunção possa ser um dos mecanismos que aumentam a vulnerabilidade dos pacientes ao Sars-CoV-2", diz Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química da USP e coordenador do estudo.

Com o espalhamento generalizado da doença na população, porém, não se pode descartar a presença de casos graves e mortes em crianças e adolescentes. Nesses pacientes, pode ocorrer a chamada SIM-P (Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica), com sintomas como febre alta e persistente, manchas vermelhas na pele, diarreia, vômitos e até problemas neurológicos. O vírus pode levar o coração a se inflamar, o que provoca insuficiência cardíaca. Dolhnikoff diz que alguns pacientes adultos também têm apresentado sintomas semelhantes ao da síndrome.

Estão se acumulando indícios de que o Sars-CoV-2 seria capaz de transformar outra das defesas antivirais do organismo em algo que favorece seu espalhamento. Trata-se da chamada apoptose, uma das formas de morte celular programada. A apoptose pode ser acionada quando uma célula é infectada por um vírus, o que diminuiria as chances de que o invasor viral vitimasse células vizinhas.

"Mostramos que a ativação da apoptose está associada à replicação do vírus. Agora, investigamos como a apoptose modula esse processo", disse o primeiro autor do estudo, Hin Chu, também da Universidade de Hong Kong. Embora pistas como a do estudo chinês tenham aparecido em diversas linhas de pesquisa, o fato é que pouquíssimas conseguiram dar origem a terapias viáveis por enquanto.

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