Articulistas

Nossos momentos de dor

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Geralmente, o homem finge que está tudo bem, finge que é otimista, quando, na verdade, não ignora que o mundo está se derretendo sob seus pés. Podemos nos unir contra nós mesmos para nosso próprio interesse? É possível até que com educação dirigida e propaganda adequada possamos fazer prevalecer esse ponto de vista de que o considerado um tempo de paz não o é, mas que temos uma real ameaça pendendo sobre nós o tempo todo.

Nestes tempos horríveis de pandemia, os seres humanos querem espantar os momentos de aflição, dispostos a se unir sob a ameaça de destruição ou catástrofe. Quantas vezes nos pegamos a dizer que tudo é passageiro, vai passar, os bons tempos voltarão. É uma especulação bastante remota, mas é possível que algumas dessas afirmações convençam as pessoas a se conectar e aceitar provações a curto prazo, em troca de bens a longo prazo. Estão dispostos a se abraçar sob a ameaça desses sinistros. E o que vemos são mutirões, pessoas se ajudando algumas às outras, empresas se envolvendo numa solidariedade que há muito não presenciávamos.

Até que em certo momento, mesmo alguns daqueles envolvidos nessas ações conjuntas de congraçamento, de concórdia, de harmonia serão atingidos mais diretamente pela dor, pela desgraça. Como um raio em céu ameaçador a mão do destino, sorrateiramente, desce fulminante arrancando de seu convívio, e fora de suas especulações, uma pessoa muito amada. Então, os envolvidos nesses movimentos solidários, que mentiam para si mesmos que tudo iria melhorar e nem remotamente pensavam numa uma tristeza maior ocorrendo entre eles, contudo, tiveram de aceitar uma realidade muito diferente.

Como nos versos de Homero, Aquiles, o guerreiro, vê arrancar-lhe do convívio, Pátroclo, seu melhor amigo, insubstituível, figura super adorada. Daí, segundo o mito, sobrevém a fúria. Como viver sem a criatura que mais amamos? Valem a pena estas incursões sobre o passado histórico porque nos ajudam a lançar luz sobre problemas atuais. Homero e os poetas que o seguiam, em momentos difíceis, em situações como essa que atravessamos, pediam inspiração às musas. A reação de Aquiles, ao perder o amigo, foi de lancinante loucura, desvario. Os apelos às musas podem ser vistos como pedidos a essa faculdade ficcional no fundo de nossas mentes. Toda a teoria de Homero baseia-se na ideia de possessão divina ou diabólica: os deuses intervêm diretamente ou por algum agente e nos levam a fazer coisas desprezíveis. Há também nas concepções de Homero intervenções boas em que poderes sobrenaturais nos ajudam.

Vale aqui o momento da pergunta: hoje como reagir diante de uma dor como a de Aquiles e de tantos seres humanos que, em razão dessa maldita pandemia, vêm-se despojados de pessoas amadas? Enxergue-se, para exemplo, como uma vítima desse vírus invisível, amaldiçoado, que o fez perder um ser querido de forma abrupta e repentina. Sem mais, arrancaram de sua vida um ser muito amado. Como você se comportaria? Agiria, diante desse momento de dor, com furor, desespero ou passiva e placidamente? Inclino-me a discutir sobre isso.

A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada - Unesp

 

Comentários

Comentários