Tribuna do Leitor

Noite de São João

Marcondes Serotini Filho - O autor é ortodontista, Jornalista e cronista
| Tempo de leitura: 3 min

"Soltando fogueTchê // Pulando fogueira // Era noite de São João", por Kleiton e Kledir.

Ignorar o tamanho do Brasil quando análises críticas e comparações são feitas é erro irreparável. Sim, temos muitos países de território continental que resolveram seus problemas básicos, mas o tamanho desta terra brasilis é fator decisivo para explicar o porquê de ainda não termos dado certo. País pequeno tem suas vantagens. Sempre ouvimos falar de movimentos separatistas, principalmente no sul do país, que nunca encontram eco na alma brasileira. São vozes que democraticamente podem soar, mas o fazem solitariamente, sem ressonância alguma.

As artes brasileiras, frutos de nossa cultura rica e miscigenada, a geléia geral brasileira da qual falou Gilberto Gil, nos propõe diversas manifestações de unidade nacional. Que não se confunda com o ufanismo exacerbado, essa ideia de que se tocar o hino nacional de manhã nas escolas as coisas vão começar a melhorar. Falo de canções, folguedos, ritmos e rituais que atravessam as BRs, cruzam rios e voam nas asas do cancioneiro popular e vão se alojar em todos os recôncavos, grotões e cidades, iguais, senão análogas e com a mesma essência.

Como exemplo, temos a maior festa junina do Brasil, que toma lugar na Paraíba, em Campina Grande. Quentão, pipoca, sanfona, forró, pinhão, fogos de artifício, fogueira, e tudo o mais que nossa lembrança traz com grande alegria à tona, lá estão de maneira grandiosa.

Certo é que Luiz Gonzaga retratou o São João como ninguém: "Viva São João, meu carneirinho, como te esperei o ano inteirinho". Nada mais justo que um sertanejo assim o fizesse, com toda propriedade.

Mas o espelho que vem do sul é o que reflete perfeitamente nosso Brasil como um gigante só, sem fronteiras, limites ou separações.

A dupla de compositores, autores daquele verso na citação ali no início é gaúcha, da capital Porto Alegre. Nem interioranos são. Mas a letra na íntegra, com a poesia refinada que faz parte da história destes bardos, unida à harmonia que se casa perfeitamente com o espírito de uma festa junina, mostra magistralmente o que eram - e são - essas festas.

Como a origem das festas juninas é ibérica, aqui ela se instalou rapidamente. O paralelo no sul que eles fazem é espetacular. O forró do nordeste ali se chama vanerão, fandango. Que é comandado não por uma sanfona, mas pela sua irmã gêmea, que nas tertúlias dos pampas atende pelo nome de 'cordiona' (acordeão).

O ritmo, também recebe o mesmo nome. Se no nordeste temos o xote, o xerém, o xaxado e o famoso baião, no sul, além da vanera, temos a milonga, o bugio, o chamamé e, pasmem, o xote, que alguns ali chamam de xotis. Analisando os dois xotes, o do sul e o de Luiz Gonzaga, a cadência é igual. Binária ou quaternária, dança-se como quiser, porque é contagiante. A única recomendação é a de ter que tirar a poeira do chão. Porque no nordeste é sanfoneiro. No sul é gaiteiro. O mesmo que Luiz reclamou que cochilou quando o candieiro se apagou, mas a sanfona não parou e o forró continuou, na canção Forró no escuro. E calhou de os gaúchos terem feito a melhor canção sobre festa junina na modesta opinião deste que vos escreve, cujo refrão está na citação inicial, sem jamais arranhar as características desta tradicional festa, que tem como sua maior marca ser uma manifestação dos brasileiros. Do Oiapoque ao Chuí.

 

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