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Ainda as questões do racismo

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 1 min

No já longínquo 13 de maio deste ano, em órgãos da imprensa foram publicados especiais e muitas matérias sobre os 133 anos da assinatura da Lei Áurea.

Primeiramente, cabe trazer um dado que foi deixado de lado nessas matérias, mostrando que, à época, o Brasil possuía 10 milhões de habitantes e já a maioria de 58% era de afrodescendentes, ainda que cerca de 26% deles (ou 15% da população total) eram escravizados. Nossa mais profunda mazela se perpetua hoje nas periferias, no racismo estrutural, no preconceito e na disparidade social. Não é difícil entender por que a data não merece comemoração.

Outro fato inquietante foi a constatação de que softwares de reconhecimento facial falham com rostos de negros. Esses "códigos de preconceito", como tem sido rotulada o ciber-racismo, mostram que o algoritmo de hoje é o embranquecimento fotográfico de ontem. É histórica a justificativa de não haver filmes com sensibilidade adequada para a pele negra que resultaram, mais de um século atrás, em retratos de Machado de Assis e Lima Barreto brancos, por exemplo. Filmes e programas artificiais, lembremos, feitos por pessoas que carregam o racismo estrutural em si.

A riqueza de um país pode ser avaliada pela disponibilidade e aplicação de capital e de trabalho, para se restringir a fundamentos básicos da economia. O capital material brasileiro é assim representado pelas riquezas agrominerais, e a condição do habitante originário - os indígenas - é o símbolo máximo da exploração desses recursos e sua deterioração ambiental. Na outra ponta, foi sob o trabalho do negro aqui escravizado que o capital sucro-cafeeiro foi constituído. Temas sensíveis, mas que precisamos dizer e reconhecer.

 O autor é pesquisador da Unesp em Rio Claro.

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