Eu sempre fui um apaixonado por alguma coisa. Na infância eu tinha uma paixão pela Idade Média. Eu brincava muito com os bonequinhos, como se eles fossem cavaleiros da Idade Média. Depois vieram as namoradas, e eu revelei uma certa tendência para personagem de novela, daqueles que vivem um tipo de epopeia dramática com cada namorada. Cresci, ou estou crescendo, tardiamente para as coisas mais adultas do mundo, de modo que recentemente eu passei a me apaixonar por lugares. Já estou naquela idade em que o "recentemente" pode significar dez anos. E foi há exatamente 11 anos que eu comecei a paixão pelos lugares.
Na verdade, desde criança eu tive uma inclinação para me interessar mais que o normal por cada lugar que eu conhecia. Ia a uma fazenda, ficava abismado com tudo; viajava com a família, ficava impressionado com a cidade, reparava nas diferenças das pessoas de lá para as de cá. Mas há 11 anos eu fui para a Serra da Jureia. Fiquei tão maravilhado, que fiz sérios planos para me mudar pra lá. Os planos foram interrompidos porque eu conheci Piratininga na mesma época.
Na verdade, eu descobri a zona rural de Piratininga, mais ainda que a cidade. Fiz um livro sobre tudo isso, o Boca do Sertão, que conta a história das grandes fazendas de café do município, propriedades centenárias da era de ouro do coronelismo paulista.
Como ocorre com as mulheres, a paixão por lugares também sofre seus reveses. As crises mais graves entre mim e Piratininga ocorreram em duas ocasiões: logo em 2010, quando eu conheci o povoado e distrito de Brasília Paulista, e em 2011, quando eu fui visitar a Irlanda - na minha única viagem realmente internacional até hoje.
Com Brasília Paulista houve uma identificação imediata. Quando eu vi o lugar e o caminho necessário para chegar lá, senti como se sempre tivesse estado ali, como se fosse minha casa. Mas aí veio a Irlanda, e tive um medo real de me desapaixonar por Piratininga. Ver a Irlanda era sonho de infância, de quando eu brincava de Idade Média. E se eu inventasse de ficar lá e não voltasse nunca mais? O que seria de Piratininga?
Mas não deu tanta química assim. É certo que eu adorei o país: eu só tinha dinheiro para ficar 15 dias, então fiquei cinco dias em cada uma das três cidades que escolhi, o que me deu tempo de explorar os arredores, aqueles lugares pra onde ninguém vai. Eu queria ver o sertanejo de lá.
Até o oitavo dia de viagem, eu confesso que corri um perigo real de me desapaixonar por Piratininga. A Irlanda é um país incrível, o segundo maior IDH do mundo; tudo dá certo, tudo está certo, não tem problema que seja visível hoje para um visitante. O povo da zona rural de Galway, por exemplo, fala irlandês na rua, uma língua gutural - às vezes soa meio indígena, uma coisa antiquíssima. Mas eles vivem com um padrão de vida altíssimo, com muito conforto, muita segurança. Tá tudo certo demais!
Fiquei meio atordoado com tanta perfeição, até que um dia eu vi uma moçada nos arcos de 1500, que eram o portão da cidade de Galway, e eles jogaram um monte de lixo no chão. Era o point do final do dia, ficou sujo. Deu um certo alívio, um sentido de normalidade pra mim. Na manhã seguinte, por coincidência, eu passei no mesmo lugar, e não tinha mais uma bala de papel no chão, estava tudo tinindo. A prefeitura veio e limpou na madrugada.
Dias depois, fui pegar o trem de Cohb para Cork - de um distrito para a cidade. Não tinha ninguém vendendo passagem, tudo vazio. Perguntei pro pessoal do skate, ali do lado, onde poderia comprar a passagem, e eles falaram que era de graça: "Go ahead!" Eu entrei e fui pra Cork. Voltei no final do dia, tornei a pegar o trem pra Cork no dia seguinte, e só quando eu voltei no segundo dia, eu vi uma placa escrito: "Mostre sua passagem aqui". Também não tinha ninguém pra conferir, mas não era de graça. Perguntei pra um funcionário da ferrovia se tinha que comprar passagem pra Cohb, e ele riu: "Mas é claro que tem! De onde você é?" Tinha uma máquina pra você enfiar o dinheiro e tirar a passagem.
Aquela organização e a civilidade extrema começaram a me incomodar. Nos últimos dois dias de viagem, eu já queria ir embora. Piratininga venceu a Irlanda. Já me lembrava com saudades do Seu Toninho reclamando que não podia cortar o eucalipto do antigo leito do trem, porque a "Florestal" não deixava, mas eucalipto não é nativo, então... - o tipo de coisa que já está completamente resolvida na Irlanda: onde pode, pode. Onde não pode, dá cadeia, e ninguém mais discute isso.
Voltando ao Brasil, mergulhei meus finais de semana em Brasília Paulista. Quase todos. Não saía mais de lá. Não saio mais de lá até hoje. E não posso dizer que a paixão por Brasília Paulista implique um abandono de Piratininga, já que a primeira fica dentro do território da segunda. É como amar uma mulher que existe dentro da outra. Ou não, talvez a paixão por lugares não tenha paralelo algum com a paixão romântica das novelas e romances. Sigo fiel a Brasília Paulista, sem jamais abandonar Piratininga. Mas e Bauru? Bauru é assunto para outro texto.