Articulistas

Quatro paredes sólidas

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Mãos de pedreiro, outras não deveriam ser nossas mãos. E, untadas de firme reboco, juntassem e amarrassem, com fios de ferro, as carreiras de tijolos que, bem assentados, subiriam firmes em paredes alinhadas. É dever de todo homem construir-se. É só o que a vida espera de cada um. Construir-se com harmonia, sobretudo com serenidade para acolher e espalhar alegria, que, num descuido, bicho a gente pode de ser.

Quem se constrói precisa de cuidado na hora de escolher. Não se escolhe a esmo, o que a mão pegar. Nem para se ter mais no simples desejo de acumular. Escolhe-se, eis o segredo, para se harmonizar. Em toda construção humana há de existir harmonia, nenhuma nota deve brigar com o acorde que a acolhe. Daí a necessidade de nos afastarmos de tudo que destoa de nós e pode nos intoxicar. Escolhamos com critério, a começar pelo piso, que é o caminho a trilhar. Nada de confusão de cacos e cerâmicas brigando na cor e no tamanho descombinados. As paredes sólidas, tijolo com tijolo num desenho mágico, subirão firmes em busca do telhado protetor. Que haja jardins, muitos, convidando beija-flores e existam gramados de extenso verde, onde se possa, sob o sol, ler e espreguiçar. O segredo , disse o poeta Mário Quintana, "não é correr atrás das borboletas; é cuidar do jardim para que elas venham até você". E que a casa em construção tenha muitas portas e outras tantas janelas, sempre abertas, que é um jeito amigo de convidar.

Quem se constrói, além de saber escolher, precisa saber ser escolhido. Existe, no silêncio da alma, uma voz que, bem ouvida, nos convoca como seres construtores. Vocacionados são todos que ouvem esse chamado interior para - sem sair de si - irem ao encontro do outro. Vocacionados são todas as pessoas, não importa o selo de classe, de cor ou de religião, mas sim que tenham consciência da importância do que fazem. Ser importante é diferente de ter sucesso. Importantes são as pessoas que importam, que fazem falta, ainda que anônimas sejam. A propósito, Frei Betto delas nos fala assim: "Nada faz mais feliz uma pessoa do que o sentido que imprime à própria vida, seja enfiada em um laboratório pesquisando células de formiga, seja como militante que busca a transformação da sociedade".

Mãos de pedreiro, outras não deveriam ser nossas mãos. Construir-se com harmonia, sobretudo com serenidade para acolher e espalhar alegria.

Basta um descuido e bicho a gente pode ser.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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