O recurso ao negativismo sistemático esconde uma tentativa de ocultar algo que nos incomoda: nossa incapacidade de valorizar boas histórias e flagrar a grandeza do cotidiano. "Quando nada acontece", dizia Guimara?es Rosa, "ha? um milagre que na?o estamos vendo".
O jornalista de talento sabe descobrir a grande mate?ria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. A mi?dia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo realidade, retrata a vida como ela e?. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro me?dio nada ale?m de tamanhas e ta?o frequentes manifestac?o?es de viole?ncia e de tristeza? Penso que na?o.
A informac?a?o sobre a juventude, por exemplo, da? prioridade a um recorte da realidade, mas frequentemente sonega o outro lado, o luminoso e construtivo. O aumento da viole?ncia e a escalada das drogas castigam a juventude. A crise econo?mica, drama?tica e visi?vel a olho nu, exacerba o clima de desesperanc?a. Mas olhemos, caro leitor, o outro lado da realidade. Verdadeiro e factual, embora menos noticiado por uma mi?dia obcecada pela si?ndrome da informac?a?o sombria.
A delinque?ncia, na verdade, esta? longe de representar a maioria esmagadora da populac?a?o estudantil. Denunciar o avanc?o da viole?ncia e a fale?ncia do Estado e? um dever e?tico. Mas na?o e? menos e?tico iluminar a cena de ac?o?es construtivas, de gestos de solidariedade, de magni?ficas ac?o?es de voluntariado, marca registrada de uma juventude generosa e trabalhadora que, sem alarde ou pirotecnia do marketing, colabora, e muito, na construc?a?o da cidadania.
A juventude, ao contra?rio do que fica pairando em algumas reportagens, na?o esta? ta?o a? deriva assim. Ha? em andamento profundas e positivas mudanc?as comportamentais. A fami?lia, na?o obstante sua crise evidente, e? uma forte aspirac?a?o dos jovens.
Ao contra?rio do que se pensa em certos ambientes politicamente corretos, os adolescentes atribuem importa?ncia decisiva ao ambiente familiar. Mesmo os jovens que convivem com a viole?ncia dome?stica consideram importante a base familiar. Os jovens, em numerosas pesquisas, apontam a fami?lia tradicional como a instituic?a?o de maior ascende?ncia em suas deciso?es.
Assiste-se, na universidade e no ambiente de trabalho, ao ocaso das ideologias e ao surgimento de um forte profissionalismo. Ao contra?rio das utopias do passado, os jovens acreditam na excele?ncia e no me?rito como forma de fazer a verdadeira revoluc?a?o. Eles defendem o pluralismo e o debate das ideias.
O pensamento divergente e? sauda?vel. As pessoas querem um discurso diverso, na?o um local onde se pregue apenas uma corrente de pensamento.
Impressiona o número de jovens que abraçam o estudo da filosofia, da literatura e da história com grande liberdade de espírito. Não são reféns da matriz marxista que dominou, e ainda domina, a velha academia. A revolução em andamento é profunda e duradoura.
O mundo esta? mudando. Quem na?o perceber - na mi?dia e fora dela - essa virada cultural e comportamental perdera? conexa?o com um importante segmento do mercado de consumo editorial.
O autor é jornalista - difranco@ise.org.br