Serviço fundamental para promover sustentabilidade e fonte de renda para muitas famílias de integrantes das cooperativas de catadores, a reciclagem está no centro de uma crise em Bauru. Em 2021, o volume de materiais apanhado pela Emdurb por meio da coleta seletiva despencou, o que não refletiu aos valores pagos à empresa municipal, uma vez que o contrato vigente prevê um custo fixo para o serviço, independente do peso total coletado (leia mais abaixo). Com essa perda de efetividade da recolha bairro a bairro, os Ecopontos - que recebem itens levados pela própria população - se tornaram o principal instrumento de arrecadação de resíduos passíveis de reaproveitamento.
Mal explorada e muito aquém da sua capacidade, a reciclagem no município tem um horizonte ainda mais incerto porque o contrato de gestão destes Ecopontos, firmado entre a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) e a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Ascam), está sob risco de ser interrompido. E, sem ele, as cooperativas projetam que não conseguirão sobreviver - o que pode levar até mesmo à paralisação do trabalho de recepção, triagem e comercialização dos materiais oriundos da coleta da Emdurb. Em meio à crise, a Ascam promete recorrer ao Ministério Público nesta semana (leia mais na página ao lado).
PELA METADE
Os números informados pela própria Emdurb dão dimensão da situação atual da coleta seletiva. No primeiro semestre de 2021, a empresa pública coletou 463,8 toneladas de recicláveis, o que equivale a cerca de metade do montante arrecadado no mesmo período do ano passado, quando o serviço destinou 865,4 toneladas às cooperativas.
Considerando apenas junho passado, foram modestas 49,6 toneladas, ante a 141,9 toneladas contabilizadas no mesmo mês de 2020. Em junho de 2015, o montante havia chegado a 208,5 toneladas.
Secretário municipal do Meio Ambiente (Semma), Dorival José Coral atribui a queda ao número crescente dos chamados atravessadores, que são pessoas e até empresas que sabem os dias e horários da coleta oficial e passam nos bairros antes dos caminhões da Emdurb. "É preciso considerar as questões sociais em que estamos inseridos, com pandemia, perda de empregos, além da alta do valor destes resíduos no mercado. Trabalhar com recicláveis tem sido a garantia de renda a muitas pessoas".
CONCORRÊNCIA
Para se ter ideia, segundo o diretor de Limpeza Pública da Emdurb, Sidnei Rodrigues, existem aproximadamente 160 depósitos de materiais em Bauru, a maioria deles atuando informalmente. Ele aponta que, diante deste cenário, algumas cooperativas associadas à Ascam passaram a se antecipar a estes atravessadores, coletando recicláveis com caminhão próprio ainda mais cedo, o que também ajudou a derrubar o volume recolhido oficialmente pela Emdurb.
Porém, segundo Gisele Moretti, presidente da Ascam e líder da Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis de Bauru (Coopeco), instalada no Ferradura Mirim, estas ações - de tentar antecipar os atravessadores - ocorreram de forma experimental e pontual e não justificam as quedas sucessivas dos números registrados pela Emdurb atualmente. "Neste ano, fizemos um teste no mês de maio para ver quanto a gente conseguiria arrecadar em um mês e só a Coopeco conseguiu 50 toneladas, o que mostra que a logística da Emdurb está errada. Não estamos fazendo este trabalho de forma contínua, até porque o custo, incluindo mão de obra, manutenção de caminhão, combustível, é muito alto. Nem teríamos condições", argumenta.