No último ano de pandemia e isolamento social é bem provável que você tenha ouvido por aí sobre a importância de se autoconhecer. Para muito além de um tema constante em sessões de terapia, o autoconhecimento é visto por especialistas como uma das primeiras ferramentas para construir uma carreira profissional. Quem sou eu? O que eu quero ser? O que eu quero fazer da vida? O que eu não quero fazer? Onde quero chegar? O que me irrita? "Tudo isso é um processo de autoconhecimento. Se você iniciar o autoconhecimento pessoal, ele vai afetar o profissional, não há ninguém que seja sábio em apenas um campo", explica Leandro Karnal.
Qual a diferença entre o autoconhecimento pessoal e o profissional?
Leandro Karnal - Todo o autoconhecimento, que é a base da filosofia, é um progresso, mas nós temos diferentes habilidades. Há pessoas, por exemplo, que são excelentes profissionais e são maus maridos ou más esposas. Isso é possível, mas todo o processo de autoconhecimento faz avançar. Por exemplo, o que me irrita? O que me agrada? Quais são os pontos em que eu chego ao meu limite? Tudo isso é um processo de autoconhecimento. Se você iniciar o autoconhecimento pessoal, ele vai afetar o profissional, não há ninguém que seja sábio em apenas um campo.
O que fazer quando a empresa em que você trabalha se torna tóxica?
Leandro Karnal - Eu já trabalhei em escolas quando jovem, muito difíceis, em situações que eu diria até humilhantes, mas eu precisava daquele dinheiro. Especialmente no início da carreira, que eu não podia escolher. Então, às vezes, o imperativo das suas necessidades se sobrepõe a isso. E aí é tentar diminuir os danos. Há empresas que realmente talvez seja melhor você atrasar o aluguel e não trabalhar nelas. Então, eu tenho que negociar com o real. Quando eu estava em um lugar muito ruim, eu tentava me adaptar, diminuir aquele incômodo que uma empresa tóxica produz,. A vida não é ideal, mas aprender a negociar com situações difíceis é como você fazer uma espécie de estágio em um campo minado, depois fica mais fácil andar em território normal. Quem sobe montanha facilmente com dificuldades, quando tem que correr na planície, vai ser muito melhor.
Você acredita que é possível encontrar felicidade no trabalho?
Leandro Karnal - Primeiro, a pergunta seria: é possível encontrar felicidade? Porque quem consegue responder a isso consegue responder no trabalho, na família e assim por diante. Se vocês consideram felicidade um estado paradisíaco, um Nirvana, algo que, uma vez atingido está conquistado, eu diria, não, não é possível encontrá-la nem no trabalho e nem na família, e nem sozinho. Mas se você considera felicidade um evento perfectível, ou seja, possível de ser aperfeiçoado, e um caminho de crescimento para um bem-estar, aí você segue o conselho do professor Shawn Achor, de Harvard, que diz que felicidade não é o prêmio, mas é o caminho para conseguir o prêmio. Você tem que ser feliz para crescer na hierarquia de uma empresa, tem que ser feliz para construir um bom casamento... Então, a questão não é exatamente como encontrar felicidade no trabalho, mas de que forma eu concebo felicidade, não exatamente como paraíso, mas como, pelo menos, uma maneira de evitar o inferno, o que já é um grande caminho.
Como lidar com colegas difíceis?
Leandro Karnal - Eu acho que eu nunca trabalhei na minha vida sem ter algumas pessoas difíceis. Aprender a negociar com diferentes timings, diferentes percepções de tom de voz, diferentes percepções de gentileza, educação e trato com os outros é um grande desafio de vida. Agora, quando se torna insuportável, fala-se com a pessoa e, quando se torna impossível conviver, fala-se com o RH. As pessoas difíceis, às vezes, precisam de um toque afetivo e outras precisam de uma chamada formal advertida pelo chefe. Então, tem que aprender a lidar com isso.
Como as lideranças podem ajudar seus liderados a se conhecerem melhor?
Leandro Karnal - Uma das grandes habilidades de qualquer pessoa que exerce qualquer função, desde um pai até um professor, de um chefe até um político, é saber que as pessoas são diferentes, as pessoas reagem de forma distinta e que as pessoas não podem ser tratadas em conjunto. A primeira questão de um chefe é o exemplo. Uma liderança ensina pelo exemplo, que a gente chama de currículo oculto. Pessoas não são robôs, pessoas são diferentes, alguns precisam de uma energia A, outros de uma energia B na resposta. Um chefe tem que ser inteligente e sábio. Inteligente para dominar a técnica e sábio para poder lidar com pessoas.
Como identificar que estou em uma zona de conforto?
Leandro Karnal - Essa é a pergunta de um milhão de dólares, né? Zona de conforto é o seu pior inimigo. Tudo aquilo que te deixa quentinho e acomodado, não exige o melhor e vai produzir efeito negativo no seu crescimento. A primeira pergunta a se fazer é: nos últimos seis meses você enfrentou novas habilidades e aprendizados? Nos últimos seis meses, você, naquela função e daquela forma, conseguiu aprender algo? Foi desafiada em qualquer habilidade? Se a resposta for não, você está em uma zona de conforto. É muito importante se perguntar se onde eu estou, estou sendo desafiado? Aquilo que eu estou fazendo é algo que de fato promove o melhor de mim, exige o máximo de mim? Senão é hora de você criar esses desafios ou assumir funções que contenham estes desafios.