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Biles, o salto que aconteceu não acontecendo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Com um medo de rabo entre as pernas, as Olimpíadas de Tóquio chegaram para que delas nunca mais nos esqueçamos. Destoando de longa tradição, vieram de ponta-cabeça, surpreendendo radicalmente. Marcadas para 2020, perderam o bonde do tempo e aconteceram em 2021. Fugindo da Covid, com um ano de atraso, chegaram assustadas, capengando. Acostumadas a reinar nos espaços midiáticos, foram obrigadas a dividir suas manchetes com um vírus invisível, mas pandêmico e letal. As entusiásticas arquibancadas, que sempre aplaudiram os olímpicos deuses do solo, da água e do ar, ficaram mudas e vazias. E o épico espetáculo dos atletas de ferro - homens e mulheres - ficou ainda maior quando a deusa Simone Biles deu um salto inimaginável, o mais difícil da sua incrível carreira, mostrando ao mundo que a fragilidade e o medo merecem o mesmo, senão pódio ainda maior. Confessando-se insegura, desistiu de se apresentar. O mundo seria bem melhor sendo dos fracos, triste que nossos olhos empoeirados não tenham enxergado verdade tão solar.

O fraco é a verdade. O mito, a fantasia. O fraco ensina. O mito dissimula. "Vem que eu te quero fraco, que eu te quero tolo, vem sem mentir pra você" foi o convite do Chico em canção de título sugestivo: "Sem fantasia". Debaixo da casca mentirosa, somos todos Simone Biles, desde que, com a mesma coragem, reconheçamos o quanto somos frágeis e inseguros. O problema é que fica cada vez mais difícil mostrar feridas num mundo que nos ensina, a todo momento, mostrar Ferraris, iates e mansões. Na incrível imagem de Arnaldo Jabor, o homem do agora casou-se consigo mesmo, depois virou "passaralho", um pênis voador que vive de flor em flor bicando prazeres, sem em nenhuma se deter.

Embriagados por essa ideia de sermos um fodão competitivo e esmagador, acabamos criando um mundo cosmético de aparências que enterrou, em vala funda, a nossa mais humana verdade. Não é de estranhar que estejamos estressados, ansiosos e depressivos numa vida competitiva e desumana, da qual precisamos, a qualquer custo, fugir. Então, nos entorpecermos de álcool, de drogas, de pílulas, de ansiolíticos... Então, nos lambuzamos nos prazeres do corpo, dos olhos, da boca... Então, nos orgasmamos no espelho de toda manhã. Então, transformamos tudo em espetáculo, tudo em show midiático, tudo em baladas de perder a cabeça. É o que Mario Vargas Llosa chamou de "civilização do espetáculo": quando, fugindo do tédio precisamos nos embriagar, "vidas geralmente enquadradas em rotinas deprimentes e às vezes imbecilizantes".

Obrigado, Simone Biles, por este salto incrível que aconteceu não acontecendo. O mundo todo via a deusa Biles, mas ignorava que, dentro daquela menina de corpo elástico, havia um ser humano frágil e vulnerável como todos somos. O seu gesto humilde resgata, agora, outros tão iguais. Pouco tempo antes das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, o fenômeno Michael Phelps, o mais condecorado atleta olímpico da história, confidenciou que estava enfrentando depressão e tinha pensamentos suicidas. Também DeMar DeRozan e Kevin Love, jogadores da NBA (Associação Nacional de Basquete) e a patinadora Gracie Gold confessaram sofrer de ansiedade e de depressão.

Nas olimpíadas da força e da coragem, virtudes humanas admiráveis, um substantivo pediu lugar no pódio: "vulnerabilidade". Se a genial Biles disse, corajosamente, a todos os microfones, que não saltaria por estar insegura, que nós outros repensemos a nossa pose ridícula de estampar na testa mentiroso selo de sucesso e de poder.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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