De tardezinha, a caminho de casa, depois de mais um dia de trabalho no campo, Belarmino resolve passar pelo bar do Faustino, pra tomar uma branquinha. Sentado próximo da porta, observa seu compadre Gumercindo, passando do outro lado da rua. Ávido por um dedo de prosa, não hesita em chamá-lo - Se achegue compadre! Também voltando do campo, Gumercindo atravessa a rua de terra batida e vai entrando no bar. Como vai compadre? Cansado, compadre Belarmino. A vida do campo não é fácil não. Não é mesmo compadre. Um dia plantando, outro dia roçando e finalmente colhendo se o tempo ajudar. Mas não podemos desanimar! Se assente comigo compadre, vamos tomar uma branquinha e trocar um dedo de prosa. Como vai a comadre Idalina? Anda com uma dor de dente, que não a deixa dormir. E a comadre Alzira? Vive me pedindo pra levá-la na cidade. Prepara o bolso compadre! Tem ido pescar compadre? Uma vez ou outra, quando sobra tempo.
Domingo passado, peguei minhas varinhas de bambu, anzóis, chumbadas, linha de nylon, uma latinha com minhocas e desci em direção do rio. Sentei no barranco, espetei as varinhas na beira do rio e fiquei esperando o peixe fisgar a isca. Enquanto isso, peguei o canivete, piquei um pouco de fumo, cortei uma palha de milho e fiz um cigarrinho de palha.
E vosmecê, compadre, tem ido pescar? Faz muito tempo que não pego minhas varinhas de bambu e desço lá pros lados do rio. A última vez que me aventurei a pescar, além de não trazer nenhum peixe, fisguei um pé de botina velha. Nem me fale compadre. Não faz muito tempo, só consegui fisgar uma calota de carro. Mas mudando de assunto compadre, o que tem achado das notícias que ouvimos em nossos radinhos de pilha? Tenho ouvido cada coisa compadre! Postos de saúde aplicando vacinas com datas de validade supostamente vencidas. Partidos dissidentes, se unindo para pedirem o impeachment do presidente. Carroça puxada por burro de carga, apreendida transportando 300 quilos de maconha. Prenderam o burro compadre? E o se já viu burro ser preso? Cá entre nós compadre! Ouvi dizer que os generais da ativa e da reserva, com medo da volta de Lula ao poder, resolveram endossar o discurso do presidente pela implementação do voto impresso. Mas por qual interesse compadre? E que por fazerem parte do governo, receiam ficar distantes dos holofotes da política, diante da possibilidade da reeleição de Bolsonaro não acontecer. Como diria o Genaro da farmácia - Isto é paura (medo) compadre. Mas deixando a politica um pouco de lado. A tal da pandemia já tá sobre controle? Que nada compadre. Agora só se falam numa tal de variante Delta, de origem Indiana, que como tantas outras, tiveram sua origem advindas do próprio coronavírus. Além do Brasil, tem contagiado muita gente em vários países. Ainda bem que este vírus não chegou pra essas bandas da Serra do Rola-Moça. Graças a Deus, compadre! Mas falando em pescaria compadre, vamos pescar este final de semana? Domingo de manhã, eu passo bem cedinho na sua casa e descemos pro rio. Quem sabe conseguimos pescar uns peixinhos pro almoço. O sol nem tinha raiado, o galo nem tinha cantado, lá estava Belarmino batendo na porta da casa de Gumercindo. Oh compadre! Ainda dormindo? Não! Se achegue, vamos tomar um cafezinho.
Então vamos lá! Quem sabe conseguimos fisgar umas tilápias, traíras ou lambaris. Vosmecê não se esqueceu dos apetrechos? Claro que não! Pescaria sem chapéu velho, branquinha pra toma, cigarrinho pra pitar e conversa fiada pra passar o tempo, não tem graça. Veja compadre! Um peixe fisgou a sua isca! E não é verdade compadre! Puxa devagar que parece peixe grande. Vige Maria! Olha só o que eu fisguei! Um crachá de político! Pela foto e pelo nome é de militar da reserva. Que Deus me livre e guarde! Vamos dar o fora daqui!