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O quadrilátero imaginário

Rubens A. Correa
| Tempo de leitura: 3 min

A política dos tempos contemporâneos é movida por um conjunto de elementos que, no seu todo, forma um quadrilátero que alimenta a vontade de poder dos outsiders (nem sempre!): fake news, negacionismos, pós-verdade e teoria da conspiração. Fake News é um fenômeno dos tempos (talvez de todos!) que vivemos. As notícias falsas tornaram-se uma prática permanente alimentada pelas facilidades das novas tecnologias, que formam uma rede e propagam qualquer gesto, qualquer palavra, numa escala fantástica. Notícias duvidosas sempre existiram, mas com diferenças: não na velocidade presente e nem na forma de apropriações pelos tais "influenciadores" (afinal, precisamos dar um "like" em qualquer postagem).

Negacionismos, por sua vez, também não é uma novidade. Negar a realidade ainda que baseada em dados científicos e históricos sempre esteve presente em nossa trajetória. Não faz muito tempo que um líder iraniano dizia em alto e bom som que não existiu o holocausto de judeus no contexto da 2ª. Guerra. Embora um fenômeno muito presente, o negacionismo foi apropriado por uma corrente de pessoas que simplesmente prefere desrespeitar as instituições, as mesmas instituições que o mundo esclarecido escolheu para uma vida coletiva e respeitosa.

Combinado aos dois fenômenos, temos a pós-verdade, algo que tem muito a ver com a combinação fake News-negacionismos pois que se transforma, nos tempos atuais, em uma tentativa de imposição de recusas e negações, sem base em dados materiais. A ciência, vive de dados, de referências materiais e não de simples opiniões binárias - acredito/não acredito. A ciência é uma conquista humana tão importante que não precisa de opiniões. Opinião não serve para nada, exceto para dar combustível para os outsiders da política. A ciência não é opinião!

Por fim resta a teoria da conspiração. Os outsiders da política acreditam e disseminam que sempre há um inimigo. Não interessa se real ou imaginário. Interessa dar vida "aos conspiradores" seja na forma dos que produzem vacinas e medicamentos que possam trazer efeitos (como se nunca houvesse, desde a fabricação de medicamentos); seja na maneira da liberalização de armas de fogo (afinal, estamos sempre em risco!); seja no sistema eleitoral, como se estivessem tão comprometidos com a democracia e as instituições.

O trumpismo inaugurou uma época muito triste nos tempos que vivemos. Trata-se de um movimento que ainda está em curso e que não tem o menor apreço pelos valores da democracia conquistados a preço tão caro. No Brasil o trumpismo tem seguidores, sem nenhuma originalidade, é claro, dado a falta de inteligência de seu principal adepto. Movimentos políticos, como o inaugurado por Trump, que pretendam solucionar os problemas da sociedade (que são normais, afinal de contas) através do autoritarismo e da violência, do desrespeito aos direitos humanos e da ausência de projeto político, nos levará ao fim das instituições democráticas. Só existe um sinal de projeto político por parte do trumpismo (e seus seguidores no Brasil): ser reeleito, e caso não seja possa possível dentro das normas legais, fechar o Congresso, instigar manifestantes para invadirem o Congresso Nacional, falar e repetir insistentemente de que o sistema eleitoral é corrupto e não confiável. E dessa forma movimentos da new right colocam fim às democracias!

O autor é historiador, doutor pela Unesp, professor do IFSP campus Birigui.

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