Um dia é feito de decisões fragmentadas, algumas certas outras erradas. Ao juntá-las, dia após dia, ano após ano, tem-se como resultado uma vida inteira dividida em milhões de pedaços, muitas vezes sem nenhuma linha de coerência. As decisões erradas, que nos levam a desvios, perturbam nossa paz de espírito, pois, sobrepujam os pouquíssimos acontecimentos verdadeiramente significativos em nossas vidas.
Mas, é com estes erros que mais aprendemos. Eles não são apenas contratempos em nossa jornada, mas verdadeiras lições que podem nos tornar melhores. Quando toca uma nota errada, o pianista aprende algo sobre si mesmo e sobre a peça que está tocando - talvez ele aprenda a reposicionar sua mão ou que existe uma mudança importante no meio da composição pela qual ele não esperava. Toda energia despendida em um erro nunca deve ser desperdiçada - precisa ser usada para algo que não se conseguiu enxergar.
Quando nós ficarmos chateados por uma decisão errada, nos distraímos da beleza e da lição contidas na situação que provocou o erro. Erros podem ser um sinal de despertar que nos força a pensar diferente, encontrar novas soluções ou começar um novo caminho. Eles nos fazem esforçar mais, trabalhar de maneira mais inteligente e sermos melhores. Se nós vivêssemos vidas perfeitas como pessoas perfeitas, não haveria espaço para crescimento ou transformação.
Evidentemente, na busca dessa perfeição e da ordem nela contida, evitamos tomar decisões erradas até como uma maneira de nos proteger do julgamento, de críticas e do arrependimento. Mas, há uma fascinante ressonância entre os padrões interno e externo de ordem e perfeição: quando estão em sintonia entre si, percebemos sua harmoniosa dança, quando estão em desarmonia, sentimos sua dissonância. Por exemplo, ao deitar-se, a reação da pessoa ao tic-tac constante do relógio dependerá de seu próprio ritmo interno naquele momento; se estiver em paz, interiormente tranquila, sabendo que o dia seguinte será prazeroso, aquele som é calmante, agradável e até musical. Nesse caso a simetria interna e a externa ressoam em harmonia. Porém, se a pessoa é reativa ou estiver internamente em aflição ao prever um dia seguinte desagradável ou temido e com seus pensamentos e emoções tumultuados, aquele som será insuportável. Nesse caso, a harmonia externa está zombando da desarmonia interna e a pessoa sente a dor desse escárnio.
É fácil concluir: um relacionamento desarmonioso consigo próprio espalha-se num relacionamento desarmonioso com os outros; ou ainda, um mundo interno fraturado reflete-se no colapso do externo e um mundo interno saudável reflete-se na ordem externa. Isso é válido para a vida em comunidade ou para sociedade de maneira geral. Se quisermos explorar a consciência de uma geração, devemos estudar sua expressão na arte que é uma extensão da mente e do coração do artista. De meio século para cá, se olharmos para a música, vamos observar um marcante deslocamento da ordem para a desordem. Do romantismo rítmico e estruturado para um pancadão desprovido de qualquer sistema, convenção ou significado.
Na verdade, a vida não é feita para ser uma imagem imaculada, retocada com perfeição. Ela é desordenada, interessante e inesperada. Saiba que você vai cometer erros, espere por eles, brinque na lama, dance na chuva e aproveite essa parte desordenada da sua vida.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru