Tribuna do Leitor

Por força da memória

Benedito J. A. Falcão
| Tempo de leitura: 2 min

Na década de 70, a América do Sul experimentou sua "era de chumbo". Instrumentalizados pelo colonialismo ideológico norte-americano, vários países do cone sul instalaram ditaduras militares que serviam de gerenciadora dos interesses daquele povo. E se de um lado, dobrava-se o orgulho dos generais ante o poderio estrangeiro, internamente, falava-se grosso, se torturava como nunca e pessoas "desapareciam" ou "eram suicidadas" covardemente nos porões da repressão (como no famoso caso do jornalista Vladimir Herzog).

Nessa época (que hoje, alguns, tentam distorcer) uma voz potente rompia as cordilheiras do medo. A canção "Solo le pido a Dios", do argentino León Gileco, ecoava na garganta de sua conterrânea Mercedes Sosa, confirmando o conhecido espírito libertário argentino.

E se a letra dessa canção humanitária nos ensina o poder e a necessidade de resistir ante a truculência, quatro versos são especialmente atemporais: "Solo le pido a Dios/ Que el engaño no me sea indiferente/ Si un traidor puede más que unos cuántos / Que esos cuántos no lo olviden facilmente" (Eu só peço a Deus, que a mentira não me seja indiferente. Se um só traidor tem mais poder que muitos, que esses muitos, não o esqueçam facilmente".

As ditaduras caíram. Em alguns países, seus traidores foram responsabilizados e condenados... Não aqui. Aqui, nosso "espírito cordato", aceitou um aperto de mãos traduzida na Lei da Anistia. Lei que acobertou muita gente mentalmente perturbada que se valeu do momento repressivo para dar vazão a seus demônios interiores. Hoje, tenta se constantemente, recontar a história, dando justificativa ao absurdo e enaltecendo criminosos de alta patente.

O livro "A revolução dos bichos" outrora escrito para retratar a revolução russa, com o passar dos anos, passou a mostrar com clareza a similaridade entre qualquer regime antidemocrático, independentemente do viés ideológico. Regimes que apostam na memória fraca do povo, quando as versões e as regras são distorcidas.

Voltemos ao presente. Prestem atenção: não se fala mais em Coloroquina... não se fala mais contra o isolamento... não se fala mais contra a vacina... Pior - não se fala mais nos mais de 560 mil mortos... mas eu - eu não esqueço. Não esqueço o que tem ocorrido, não esqueço os responsáveis diretos, não esqueço os cúmplices (nem os agressivos, nem os silenciosos)... E espero que mais gente não esqueça...

E para refrescar memórias, imagine-se despertando em nossa Bauru... e percorrendo as ruas, encontrasse todos seus habitantes mortos.... Fosse para Arealva, Avaí, Piratininga - todos mortos... Fosse para Lençóis Paulista, Agudos - todos mortos... Certamente você não esqueceria essa cena. Agora, lembre-se que ela não é uma ficção - ela real. Curiosamente, algumas pessoas deixaram de tocar no assunto, como se o silêncio fizesse desaparecer os fatos.

E eu - que sozinho pouco posso - sigo cantarolando esse mantra - tão antigo quanto atual: "Solo le pido a Dios/ Que el engaño no me sea indiferente/ Si un traidor puede más que unos cuántos / Que esos cuántos no lo olviden facilmente".

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