Tribuna do Leitor

Pai & Filho: sobre a Democracia

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. Dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil - Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 5 min

Filho: Hoje, pai, na aula, falou-se que é preciso melhorar a "democracia".

Pai: Mas a ideia de democracia é simples e perfeita, filho! Em resumo seria: "Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido!". Significa que o povo tem o "poder soberano" de eleger seus representantes para, no Legislativo, elaborar as leis que todos devem seguir. Só isso!

Filho: Mas a discussão maior foi sobre o "poder soberano" do povo, pois ele pode ser manipulado facilmente e acabar escolhendo errado.

Pai: Neste caso, a falha não é do sistema, mas humana e do político que mentiu, induzindo o povo ao erro, e teríamos que achar uma forma de criminalizá-lo. Sobre o "soberano", o que melhor pode representar um País? O povo ou parte dele? A parte mais rica ou mais pobre? A mais culta ou menos culta? Há Países que adotam como "soberano" um partido político, mas não vejo uma razão lógica pra isto, uma vez que seria admitir que existem pessoas com mais direitos que outras. Partindo do princípio que somos todos iguais em direitos e deveres, o maior representante de um País deve ser seu "povo", com todas suas virtudes e defeitos. Mas o que seu professor propõe, filho?

Filho: Propõe criar Conselhos Populares representando o povo, em vários setores: economia; comunicação; meio ambiente; etc. Estes Conselhos poderiam encaminhar sugestões aos dirigentes dos assuntos que representam, e com muito mais qualidade do que acontece atualmente.

Pai: Pode ser, filho, mas como estes representantes seriam indicados? E como seriam eleitos os dirigentes? Qual seria o "poder soberano" donde irradia os demais poderes? Tem certeza, que nesse processo não haverá também manipulação? Sabe, filho, "é preciso inovar na democracia" é uma lorota que os socialistas inventaram, faz tempo, para criar sua "democracia disfarçada", e ter o poder absoluto. Cuba tem um Conselho Popular, sem nenhum poder de decisão, escolhido a dedo pela cúpula cubana, só pra fazer algumas consultas de fachada, fingindo que é democracia. Na Venezuela, o disfarce é outro: o povo elege os parlamentares para legislar, mas a ditadura de lá escolhe os juízes do seu Supremo Tribunal de Justiça, que bloqueiam sistematicamente o poder do parlamento. O governo Dilma Rousseff também já criava Conselhos Populares escolhidos por eles mesmos do seu arraial, preparando o Brasil para uma futura "democracia petista". E, caso obtivessem o poder absoluto, certamente alegariam ao povo que não precisariam mais votar, pois já estavam sendo representados por estes Conselhos. Felizmente não vingou!

Filho: Mas, pai, o que o senhor faria para acabar com a manipulação?

Pai: Acabar com a manipulação não é fácil, pois ela é fruto do embate entre um político esperto e carismático, com o cidadão comum crédulo e sedento de boas novas. No Brasil poderíamos minimizar seus efeitos, melhorando a capacidade de discernimento do cidadão comum, e neste sentido a "educação e a mídia", deveriam sofrer grande reformulação. Por exemplo: nas escolas deveria acabar com a praga das "doutrinações" e, como a mídia está à vontade para fazer o que quiser - inclusive com desinformação e apoios velados a políticos amigos -, seria bom criar uma espécie de promotoria pública para avaliar os "crimes de comunicação", onde entrariam a mídia e os políticos.

Filho: Mas isto que acontece, pai, também não faz parte da democracia!?

Pai: Não, filho, pois a democracia procura o que de fato o povo pensa e quer, e isto que ocorre é distorção da realidade. Um País, como EUA, capitalista e com o povo soberano, creio que atingiu um grau invejável de desenvolvimento, pois investiu maciçamente em educação para que sua democracia produzisse bons resultados. Tratando-se de "humanos" é evidente que não há perfeição, mas o objetivo seria que cada cidadão aproveitasse, evoluísse e passasse a se sentir como parte responsável pelos destinos do País. A China seguiu outro rumo e conseguiu resultados diferentes, pois, com sua estrutura de poder socialista (não democrática), adotou um "Capitalismo de Estado", com o soberano o PCC (Partido Comunista Chinês) e não o povo.

Filho: Mas, pai, a China não está conseguindo bons resultados econômicos?

Pai: Está, filho, mas estes resultados estão ajudando mais o governo chinês, e a parte da população ligada ao PCC, por ocuparem os melhores cargos nas empresas chinesas, diferente do que acontece nas democracias onde todos do povo tem direitos iguais de participar. E o resultado disso é que a China tem um alto índice (Gini) de desigualdade social, muito maior que o dos EUA, e praticamente igual a do Brasil (mas por razões diferentes). Por isso mesmo, continuo achando que, ao longo do tempo, o povo tem se revelado uma referência mais justa e mais estável para representar um País, bem melhor do que um "partido político", este sim, uma facção que desequilibra a distribuição da riqueza e que pode ser até mais facilmente manipulada e intimidada.

Filho: Que eu saiba, pai, a esquerda no Brasil sempre defendeu a democracia!

Pai: Ora, filho, a maior manipulação é uma mentira bem contada! Note que é Cuba e a Venezuela, quem nossa esquerda apoia lá fora, que são ditaduras e não democracias. O irônico, é que a esquerda só fala em democracia no período que antecede as eleições e, quando se elege, faz de tudo para ter o poder absoluto, o que significa eliminar a democracia e a soberania do povo. Filho: O senhor acha, pai, que o Brasil vive uma democracia plena?

Pai: Infelizmente não, filho, e os motivos são variados. Um deles é pelo fato de uma parcela do povo se deixar levar facilmente por políticos mal intencionados, facilitando inclusive a corrupção no País. Por exemplo: Lula, ao invés de ajudar os pobres como prometeu, desviou bilhões de reais para amiguinhos de fora, recursos que fizeram muita falta aqui. Outro motivo, é o fato de que no nosso sistema eleitoral, a contagem dos votos pode ser burlada, colocando em dúvida os resultados e a própria democracia. Para corrigir isso, bastaria instituir um procedimento puramente administrativo, que tornasse o sistema mais confiável, que é a possibilidade de recontagem dos votos por auditoria pública.

 

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