Mais do que emocionar ou divertir, a música pode ser uma forte aliada no tratamento de doenças neurológicas. Foi através dela que um homem, em Londres, na Inglaterra, retomou algumas partes da memória, após dez anos de um verdadeiro apagão.
Depois de ser atropelado aos 19 anos e sofrer uma lesão cerebral, Thomas perdeu suas memórias anteriores ao acidente. Só aos 30 anos, quando ouviu a canção "The whole of the moon", da banda The Waterboys, ele teve seis flashbacks em sequência.
O neurologista Renan Domingues, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), professor da Santa Casa, em São Paulo, e músico "nas horas vagas", explica que, para quem sofreu lesões neurológicas, AVC, têm quadro de demência e Alzheimer, a música pode ser uma das formas de provocar a estimulação cerebral. "Essa pessoa que não está muito permeável a outros tipos de estímulo pode gostar da música e, com isso, aquilo pode ser um estímulo para o funcionamento de certas conexões que estavam prejudicadas em função da doença. Então, a música também tem função de reabilitação."
O neurologista André Lima, diretor da Clinica Neurovida, explica como a música fica armazenada no cérebro de uma pessoa. "A música estimula muito a parte da fala, da escuta, da interpretação, até o ponto que já fica memorizada na cabeça e vai como se fosse um reflexo. O gago, por exemplo, se cantar uma música, não gagueja porque aquela música já está armazenada numa outra área do cérebro dele que não é a área da linguagem. É a área da memória", afirma.
Mas ouvir uma canção pode trazer benefícios não só a quem tem algum tipo de enfermidade neurológica. Domingues destaca a importância da canção para o cérebro. "Se tiramos a música do filme, o filme não acontece, não tem o mesmo resultado da emoção de quem está assistindo. A música pode acalmar, estimular. Nosso cérebro é musical e a música tem uma relação recíproca. O cérebro produz música e, ao mesmo tempo, se beneficia com ela."
Quando ouviu a canção dos The Waterboys, na ocasião do seu aniversário, Thomas também escutou outras músicas dos anos 1980. De todas as faixas que compunham a playlist, o inglês sabia a letra de todas.
Memorizar uma música pode ser uma tarefa fácil, principalmente quando são refrões mais curtos e fáceis de serem decorados. Mas o tipo de cada canção é que vai determinar o tamanho do estímulo cerebral. "Se pegarmos as músicas com três notas que se repetem sem estrutura rítmica complexa, vamos provocar estimulação numa área cerebral menor. Se for uma música com complexidade harmônica, por exemplo, isso vai promover estímulos em áreas maiores do cérebro da pessoa", avalia o neurologista Renan Domingues.