Economia & Negócios

Inflação: do campo à mesa

Leonardo Vieceli
| Tempo de leitura: 4 min

A pressão sobre os preços dos alimentos reflete uma sequência de fatores que vai desde o dólar alto até os recentes prejuízos com a seca e as geadas no País. Juntos, os ingredientes elevam os custos de produção no campo e ameaçam o bolso das famílias nas cidades. No acumulado de 12 meses até julho, a inflação do grupo de alimentos e bebidas subiu 13,25% para os consumidores. O dado integra o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice geral de inflação avançou 8,99% no mesmo período.

Após o baque inicial da pandemia, em 2020, houve uma corrida por commodities agrícolas no mercado internacional, pressionando os valores de itens como soja e milho. Em paralelo, a desvalorização do real frente ao dólar contribuiu para deixar as cotações dos produtos em patamar ainda mais elevado. A situação se refletiu nos preços finais dos alimentos. O professor Geraldo Barros, coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), diz que o avanço do dólar também gerou uma escalada nos custos de produção no campo.

Fertilizantes estão entre as mercadorias com avanço nos preços. Esses produtos, também chamados de adubos, fornecem nutrientes para o desenvolvimento das plantas nas lavouras. O MAP (fosfato monoamônico), por exemplo, teve alta de 92,2% entre julho de 2020 e igual mês de 2021, indicam dados da consultoria GlobalFert.

Se não bastasse o aumento nos insumos relacionado à demanda e ao câmbio, variações climáticas também afetaram a produção de alimentos no Brasil nos últimos meses. A seca prolongada, seguida pelo registro de geadas em julho, danificou plantações nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Culturas como milho, café e hortaliças foram impactadas. Os estragos, dizem analistas, geram uma pressão adicional para os preços nas gôndolas dos supermercados. A dúvida é saber o nível e a velocidade dos repasses ao longo da cadeia produtiva.

"Neste ano, a agricultura foi atrapalhada pela estiagem, e as geadas também destruíram produtos que iriam logo para o mercado, como hortaliças", diz Cláudio Brisolara, gerente do departamento econômico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp).

A recente onda de frio intenso afeta ainda a pecuária. Com as geadas, pastagens foram perdidas, e a alimentação do gado precisa ser feita com rações e suplementos. A substituição aumenta os custos para os produtores e deve pressionar os preços de carnes e leite.

O preço do leite, aliás, disparou no campo. Conforme o Cepea, o valor pago ao produtor em julho chegou a R$ 2,3108 por litro no país. É o recorde real - que leva em conta a inflação - da série histórica, com dados desde 2005. O preço se refere ao leite captado no mês anterior, junho. A alta é atribuída pelo Cepea ao aumento nos custos de produção, e não a uma rentabilidade elevada para quem vive da atividade.

Outro fator que preocupa produtores é o avanço dos preços da energia elétrica gerado pela crise hídrica. Com a falta de chuvas, a conta de luz ficou mais alta, elevando os custos para irrigação de lavouras, diz Brisolara.

Diante desse cenário, os valores dos alimentos tendem a ficar em nível elevado "por mais algum tempo", projeta o analista. "O dólar não parece que vai voltar para baixo de R$ 5. Os custos devem seguir pressionados, e também é necessário tempo para recuperar parte da produção perdida", afirma.

Barros, do Cepea, tem opinião semelhante. O professor não vê sinais de trégua nos preços pelo menos até o final do ano. Ele frisa que a instabilidade política gera incertezas no mercado financeiro, o que dificulta um recuo mais forte do câmbio.

"O clima de instabilidade se cristalizou. A previsão de preços altos vem principalmente do dólar, que parece não cair. O câmbio precifica grãos e impacta outros produtos", destaca.

Na pandemia, acrescenta Barros, a moeda americana em alta também incentiva exportações, o que pode diminuir a quantidade de commodities direcionada ao mercado interno. Com o impacto na oferta, a perspectiva é de pressão nos preços no cenário local, conclui o professor.

Dentro do grupo de alimentos e bebidas, o óleo de soja é o item que mais subiu durante a pandemia, segundo o IBGE. Em 12 meses até julho, a disparada foi de 84,31%. O repolho (44,21%) veio em seguida. Tomate (42,96%), feijão fradinho (42,43%) e arroz (39,69%) também ficaram mais salgados.

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