Entrevista da semana

A missão dele é prevenir tragédias

Larissa Bastos
| Tempo de leitura: 5 min

Quando ocorre um desastre, como um grande incêndio ou uma enchente, a maioria da população corre, claro, para a direção oposta. Algumas pessoas, contudo, precisam encarar de frente o perigo para evitar tragédias. É o caso dos membros da equipe da Defesa Civil. Em Bauru, quem é responsável por organizar este importante trabalho é Marcelo Ryal Dias, de 48 anos, coordenador do órgão desde 2020.

A atuação da Defesa Civil, inclusive, está em foco nesses últimos dias, uma vez que Bauru "arde" com vários incêndios. Durante combate a um deles por mais de três dias na semana passada, Ryal chegou a ter uma insolação.

Nada que o impeça de seguir em frente. Engenheiro agrônomo, o bauruense nascido e criado na Vila Santa Luiza diz que "se encontrou" na pasta e enxerga a atuação do órgão como uma "gama de engenharias", sempre na tentativa de "prever a melhor condição de algo".

Quando não está vestindo o colete da Defesa Civil, revela-se um homem bastante ligado à família e com um hobby peculiar: criação de peixes.

Em meio a esta corrida rotina, ele separou um tempinho e contou um pouco da sua vida ao JC. Confira os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como foi sua infância?

Marcelo Ryal - Nasci em Bauru e cresci na Vila Santa Luzia. Estudei no Sesi 296. Eu sou o caçula de cinco filhos. Tenho dois irmãos e duas irmãs. Minha mãe, Dejanira Alves Fahl, me ensinou a ser perseverante e sempre incentivou o estudo e a leitura. Também tinha muito acesso à ferrovia, na época do seu auge na cidade, já que meu pai, Paulo Ryal Dias, já falecido, era maquinista na Fepasa.

JC - E como se interessou pela engenharia?

Ryal - Durante minha infância, a cidade passava por muitas obras. A rodovia Marechal Rondon, por exemplo, estava em fase de duplicação. Acho que meu gosto pela engenharia começou ali. Na época, tudo era muito acessível, porque os engenheiros tinham os projetos abertos nas pranchetas e eu pedia para ver. Acho que isso me influenciou muito. Hoje, sou fascinado por todas as engenharias.

JC - Conte um pouco mais sobre sua trajetória profissional...

Ryal - Sou formado em eletricista de manutenção pelo Senai e engenheiro agrônomo pela Faculdade de Ensino Superior e Formação Integral (Faef), em Garça. Já até dei aula de desenho industrial e de AutoCAD nessa instituição. Antes de passar no concurso da Prefeitura de Bauru para técnico agrícola, trabalhei com fios de alta tensão em Goiás, com desenho técnico e projetos em várias empresas, principalmente na área de telefonia e comunicação de Bauru.

JC - Na prefeitura, quando chegou à Defesa Civil?

Ryal - Fui remanejado em 2017 e, em 2020, me tornei coordenador do órgão. A Defesa Civil nunca foi um sonho até porque ela não existia. É uma pasta recente, mas tem sido um grande orgulho trabalhar nela. Tenho um desafio por dia, porque não existe 'receita de bolo'. Você precisa estar pronto para improvisar, mas sempre dentro dos requisitos de segurança e engenharia, se não você piora a situação. Esse desafio é o motor para que eu trabalhe todos os dias, com afinco, para que tudo dê certo. É uma paixão.

JC - Qual é o papel do órgão?

Ryal - Minimizar os riscos ao máximo, trabalhando na prevenção de tragédias, sinalizando os pontos críticos e orientando a população sobre como agir, além de atuar na reparação de danos. Agimos também na área de segurança alimentar, segurança de moradias e até resgatamos pessoas quando necessário. Pela Defesa Civil, também conseguimos arrecadar cestas básicas a quem precisa, graças à solidariedade da população de Bauru.

JC - Algum caso te marcou muito?

Ryal - Em março de 2019, quando, durante uma chuva forte, mãe e filha morreram após o carro em que elas estavam ser arrastado pela enxurrada na avenida Daniel Pacífico, no Jardim Bela Vista. Aprendi que, por mais que os locais de risco estejam sinalizados, é importante reforçar a orientação sobre os pontos críticos da cidade e ensinar como agir, por exemplo, quando estiver de carro diante de uma forte enxurrada. No caso, o correto é dar meia volta e não avançar. E, neste ano, estamos atuando muito no combate às queimadas. Na última segunda (23), após combater por três dias o incêndio que atingiu a vegetação do aeroporto, tive insolação. A Defesa Civil trabalha três vezes mais na estiagem do que na época de chuva.

JC - Mesmo com os desafios, sente que se "encontrou" na Defesa Civil?

Ryal - Sim. É exatamente isso. Consigo visualizar, de uma forma bem refinada, que o órgão é uma gama de áreas da engenharia. Para mim, a engenharia é prever a melhor condição de algo. E a Defesa Civil trabalha com prevenção. Então, é muito importante o conhecimento de engenharia para atuar na pasta.

JC - E quando não está atuando pelo órgão, o que gosta de fazer?

Ryal - Eu, minha esposa Cristiane de Paula Cucato, de 48 anos, e minha filha, Julia de Paula Ryal Dias, de 20 anos, gostamos de cuidar dos nossos cinco cachorros. Mas, meu hobby mesmo é criar peixes. Atualmente, estamos fazendo um teste com o pangasius (peixe-panga), parecido com tilápia. Também temos uma granja de Galinhas da Embrapa, conhecidas por "P51". Minha filha é quem cuida das vendas dos ovos. E temos nossa plantação de mandioca, que usamos para fazer ração.

JC - Para finalizar, quais são seus planos para o futuro?

Ryal - Pretendo continuar na Defesa Civil. Quero muito que existam investimentos públicos nessa área para que estejamos equipados para atuar e espero conseguir criar uma brigada de incêndio da pasta. Mas, independentemente do que acontecer, só tenho a agradecer a todas as pessoas que conheci. Sou abençoado.

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