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Em terra de descalços, Jesus usa chuteiras

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Dia de jogo. Faixas tingem a arquibancada. Cornetas buzinam o incentivo de seus times à vitória. A torcida, organizada no batuque do batuque do chocalho do repique do tamborim. Camisas e bandeiras à venda pela calçada do estádio vestem a alegria contagiante. Dia de jogo, daqueles que durante noventa minutos projetam suas recompensas irreveláveis em chuteiras que aliviarão o que de extenuante a vida lhes consome. Dia de jogo, de quem se joga em frente da tela, hipnotizado pelo passe que passa. Dia de rezas e velas na pimenta boa de crendice. Na favela, no condomínio a esperança vem das antenas de tevê. Nos botecos, a cerveja morde a mortadela que se parte em vogais molhadas, tão efusivas quanto bêbadas, línguas bocas e gengivas suadas de expectativa. O café não basta, é preciso debruçar-se em pensativos cigarros. Dia de partida, de quem se parte opiácio pelo time numa espécie de silêncio e unanimidade irracionais.

Início de jogo. Campeonato valendo título mundial. Aos vinte minutos do primeiro tempo, uma falta compromete o placar; valha-me, Deus, clama o torcedor atônito, a torcida de um dos times silencia, momento decisivo, o jogador ajeita a bola, o árbitro confere cuidadosamente a formação da barreira, demarca o distanciamento, faz o gesto, apita, autoriza, o chute atinge bem o canto esquerdo da rede, golaço!; só deu pra ver a frustração do goleiro debruçado de tristeza perto da trave.

Nesse momento uma cena ultrapassa os gramados da reflexão. Os pés que marcaram o gol dialogam com as mãos, que felizes comunicam-se com os indicadores, que gratos apontam ao céu na celebração do sucesso em campo. Do gol ao título, vitória em Jesus, num esporte cada vez mais jogado em campo com fé. Assim, o filho do Criador entra em campo. A elite boleira: Neymar, Gabigol, Cássio, Firmino, Daniel Alves - os atletas de Cristo - dão goleada que incentivam e inspiram a formação de jogadores. Num esporte dominado por fiéis, Jesus - é claro - tinha de usar chuteiras; por isso, a prosperidade dos jogadores servir de propaganda para a fé.

Embora se reconheça o mérito de grande parte das igrejas investirem no esporte para manter a juventude longe dos vícios das ruas, há um cartão amarelo de alerta sobre o que a massificação da religião nos gramados produz: a intolerância religiosa. Autor do quarto gol na vitória por 4 a 2 sobre a Alemanha, pela estreia da seleção brasileira masculina de futebol nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020, o atacante Paulinho comemorou o feito simbolizando uma flecha sendo atirada. Para ele, a celebração tem um significado profundo: trata-se da flecha, ou ofá, de Oxóssi, seu orixá protetor no Candomblé. Apesar dos ataques sofridos com o gesto, o jogador utiliza da popularidade dos seus 700 mil seguidores nas redes sociais para driblar a intransigência à religião.

Adepto do Candomblé, Feijão, volante revelado pelo Bahia, também sofreu preconceito, em 2017, quando reverenciou Ogum, o orixá guerreiro em suas redes sociais. A agressão e repressão a religiões de matriz africana é uma violência simbólica de um fundamentalismo religioso estruturalmente discriminador. Falta grave, falta de respeito. Nesse esporte da fé - a regra é clara - inaceitável a onipresença de uma religião. Uniforme? Basta a roupa. Dentro ou fora de campo, por amor a Deus, por amor à fé, respeito seu amém, respeite meu axé.

O autor é professor e autor de artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa.

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