O ator e diretor Lázaro Ramos está de volta ao comando do programa "Espelho", que vai ao ar no Canal Brasil. No comando da atração, ele recebe convidados, de forma virtual, para uma conversa a respeito dos mais variados temas que, urgentes, precisam ser debatidos para uma reflexão mais atenta. "Eu acho que ao longo desses anos todos, o 'Espelho' serve como um auxílio no enfrentamento aos problemas que a gente tem. A seleção dos entrevistados é pensando muito nisso, em oferecer alternativas para as pessoas através desse programa - que eu nem considero um programa de entrevistas, é um programa de escuta", afirma.
Após tantas temporadas, alguns temas necessitam retornar ao programa?
Lázaro Ramos - O 'Espelho' é um projeto que retoma seus temas o tempo todo porque é um programa que fala muito sobre a construção de futuro. Então, temas como racismo, machismo, o valor da cultura, a ética... isso sempre volta. Porque isso tudo faz parte da nossa luta diária: a gente estar atento para não cometer os mesmos erros. Mas falamos dos avanços também.
Com a pandemia, o que mudou na elaboração dele?
Lázaro Ramos - A pandemia trouxe a necessidade de fazer o programa online. Coisa que eu estava rejeitando no princípio, mas depois a gente acabou tendo uma vantagem: porque como o programa era feito no Rio, a maioria dos entrevistados acabava sendo do Rio ou, no máximo, de São Paulo. Este ano a gente conseguiu trazer pessoas de outros lugares, juntar mais de uma pessoa nos programas, ter convidados como o Mano Brown, por exemplo. Então, este ano, eu acho que o programa está com uma voz mais diversa ainda, no sentido da regionalidade e de entrevistados. E as temporadas são pensadas sempre avaliando qual o momento histórico que a gente está e sempre com o propósito de, a partir dessas entrevistas, oferecer alternativas de melhoras dos problemas da sociedade.
Como passou por esse período mais acirrado da pandemia? Aproveitou bem para produzir, trabalhar, se aproximar mais dos filhos?
Lázaro Ramos - Todas as opções acima (risos). Foi exatamente isso. Um processo que as pessoas viveram muito nas suas casas, uma aproximação maior com os filhos, muitas vezes com desafios, porque a gente teve que aprender a ficar 24 horas por dia juntos, com limitações, sem poder sair de casa quando queria, sem poder ver pessoas que são importantes para a nossa vida. Quanto ao trabalho, no primeiro momento eu achei que tinha que produzir muito e depois relaxei e vi que o meu trabalho poderia servir como uma terapia, aí sim eu comecei a produzir.
E você tem seu primeiro filme como diretor.
Lázaro Ramos - Esse filme surgiu em 2012, um ano depois de eu ter dirigido "Namíbia, Não!", do Aldri Anunciação, para o teatro. Eu percebi a potência que a história tinha para o cinema. E lá começamos a produzir e a buscar parceiros e parceiras. A princípio, não era nem um desejo meu dirigir, mas outras pessoas a quem eu ofereci tinham os seus próprios projetos e não puderam abraçar o "Medida Provisória". O que foi bom porque, ao longo desses anos todos, eu fui me preparando para ocupar esse lugar e para contar a história da melhor maneira possível.
Racismo é um tema que não pode sair da pauta diária?
Lázaro Ramos - Racismo é um tema que eu desejo que saia da pauta diária. Meu desejo não é falar sobre racismo eternamente. Mas o problema é que como, cada vez que ele mostra a sua cara, e ainda tem muita gente ignorante que comete racismo, a gente é convocado a falar dele novamente. Ele só não existirá mais quando o racismo não existir mais.
Como você vê a situação atual da cultura no País?
Lázaro
Ramos - Eu acredito que a arte permanecerá. Ela se reinventa. Chega crise, sai crise, e a arte sempre dá um jeito de estar na vida das pessoas e de ser feita. A indústria cultural eu vejo com preocupação, porque esses anos da pandemia abalaram vários profissionais. Muita gente não resistiu. Não penso com otimismo, mas com prudência. Porque eu acho que a cultura é muito estratégica para um país. E a minha atenção está voltada para entender quais são as estratégias que precisarão ser feitas para a gente cuidar desse bem tão precioso.