Lendo no JC a notícia sobre a cavalgada do sábado retrasado, observei na fotografia ilustrativa do evento um jovem cavaleiro montado numa mula, seguido por diversos equinos e muares montados, todos eles, até o quanto a visão permite alcançar com limpidez, muito bem adornados com acessórios de argolas e couro cru, aparentando uma romaria para alguma festividade. O muar visto em primeiro plano na fotografia, pelo seu grande porte e garbo, parece integrar na categoria "mula de elite", o que me fez recordar da mula que foi a montaria de preferência, senão única, na pequena tropa de equinos de meu finado tio, Sebastião Pereira de Oliveira, mais conhecido por Sebastiãozinho Maximiano. Sebastiãozinho, pronunciado no diminutivo já garante a pequena estatura de meu tio, e Maximiano nega a mínima lembrança de sua origem, talvez estivesse relacionada com algum parentesco que desconheço.
Meu tio Sebastião era o protótipo do homem do campo. Caboclo na sua descrição mais precisa, era moreno, de tez queimada pelo sol, pessoa tosca, baixinho e cego de uma visão, mantinha as terras da fazenda herdadas dos pais separadas por invernada e cafezal. Criava rebanho bovino para o abate e cultivava o cafezal para venda do produto em coco, apanhado e colocado em saco de estopa de 60 quilos. Morava numa casa típica de fazenda construída no início do século passado entre frondosas e produtivas jabuticabeiras, abastecida por água encanada conduzida por uma pequena e eficiente bomba hidráulica acionada pela pressão da água, conhecida por aríete. A noite sempre vinha acompanhada por luz de lampião a querosene na ausência de iluminação pública domiciliar na época. A moradia foi levantada próxima a margem da estrada de terra que une os municípios de Iacanga e Reginópolis. Homem rude porque nascido e criado nos severos costumes da vida familiar do campo, tornou-se pai de família de 9 filhos, todos nascidos na fazenda sob a confiabilidade de parteira sem nenhuma formação profissional. Ficou no ensino básico o que, para homem esperto em negócios de seu ramo, foi o suficiente para desfrutar de uma vida decente.
Sebastiãozinho era dono e ao mesmo tempo administrador da fazenda. Percorria a propriedade no lombo de uma mula de porte semelhante aquela que aparece em primeiro plano no JC. Animal muito bem cuidado prestava o serviço de transporte com exclusividade para meu tio. Todos os animais da tropa eram usados no trabalho do campo pelos rurícolas, os colonos, como eram conhecidos naqueles tempos. O apego ao muar tinha o seu motivo, pois o meu tio dizia que o animal andava no "passo picado", por ser o único da região, segundo notícias recebidas, que aprendeu a marchar conservando a suavidade e a graça do andar, cujo ritmo era ditado pelo cavaleiro no comando das rédeas e no jogo de esporas. Caminhando com o passo mais acelerado, não havia interferência na maciez inicial da caminhada, suportando o dia todo a lide pesada do campo com o mínimo cansaço visível na transpiração escorrida pelas laterais, dando prova que as mulas são animais mais fortes e resistentes que os cavalos.
Comparada com a tropa de equinos de que fazia parte, seu andar de cavalo marchador atraia os olhares dos apreciadores de muares dada a singularidade da mula como serviçal no trabalho do campo aprender o mesmo passo do cavalo marchador. Meu tio tinha orgulho ao entrar na cidade de Iacanga montado na donairosa mula marchadora, fazendo algumas pequenas compras e acomodando-as no embornal de tecido de algodão, confeccionado pelos filhos sob medida para a mula.
Mas o tempo passou, meu tio envelheceu ao lado da esposa, necessitando de constantes atendimentos médicos que a pequena cidade não oferecia, precisando mudar-se para Bauru com os filhos que ainda estavam solteiros. Mais tarde vendeu a fazenda com "porteira fechada", ou seja, com tudo o que estava dentro dela, incluindo a mula que virou motivo de histórias verdadeiras contadas aos seus novos amigos e vizinhos na Rua Cussy Júnior, próximo do antigo Bauru Tênis Clube.