Tribuna do Leitor

O ateu que rogou a Deus

Olga Neme Daré
| Tempo de leitura: 2 min

Seu Zé era farmacêutico, dono de um estabelecimento, em pequena cidade do interior de São Paulo. Não só vendia remédios, mas, também, manipulava receitas, em seu pequeno laboratório.

Era ateu, mas conhecido pela sua bondade em atender aos necessitados e, por isso, também, querido pela população da sua cidade.

Depois de um dia de estafante trabalho, estava para fechar a farmácia quando surge uma jovem pedindo-lhe que aviasse uma receita para sua mãe doente, há vários dias. Mesmo cansado, seu Zé atendeu à adolescente, dirigindo-se ao seu laboratório, a fim de preparar o remédio.

Terminando o procedimento, colocou-o em um frasco, entregando-o à jovenzinha, que saiu em disparada. Desejando saúde à enferma, seu Zé voltou ao laboratório para guardar os componentes usados em seus devidos lugares; mas, oh! Susto aterrador! Seu Zé, por engano, vítima do cansaço, errou na composição de um dos componentes, o que resultaria na morte daquela senhora...

Imediatamente saiu correndo, tentando alcançar a jovem que acabara de sair; procurou-a por toda a redondeza e, nada. Ninguém soube dar notícia da procurada.

A garota havia sumido. Desesperado, desolado, triste, sentindo-se, já, culpado por uma morte, mas inocente, sentou-se na calçada, sem saber o que fazer. E agora?

Lembrou-se de seus amigos, que no desejo de convertê-lo ao Cristianismo, sempre lhe falavam de um Deus, Pai misericordioso, bom e justo, que nunca abandonava os seus filhos em suas dificuldades.

Sentiu desejo, então, como último recurso, de clamar por Ele, nessa hora, para ajudá-lo e, assim, provar a sua existência.

Então, num impulso vindo do fundo do seu coração, gritou: - "Deus, se você existe, faça alguma coisa"! Calou-se à espera de uma resposta.

Foi então, que no fim daquela rua, onde seu Zé estava, surge a jovenzinha do remédio, esbaforida, desesperada, correndo em direção à farmácia. Parou em frente ao seu Zé e, chorando, rogou-lhe: - Seu Zé, o senhor pode fazer outro remédio para minha mãe? No desespero da pressa para chegar logo em casa, tropecei em uma pedra, o remédio caiu e o frasco quebrou. Por favor, seu Zé, o senhor pode?

Aliviado e, intimamente recuperado da culpa, levantou-se e correu para manipular nova receita, desta vez, correta! Sozinho, após a saída da jovem, calmo e já, um novo homem, pois teve a prova de que, realmente Deus existe! Obrigado, Senhor!

Foram suas últimas palavras naquela noite, ao fechar a sua farmácia.

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