Em um momento em que as mudanças climáticas têm gerado grande impacto na vida das pessoas, o Centro de Meteorologia de Bauru (IPMet), vinculado à Faculdade de Ciências (FC) da Unesp, pode deixar de existir. Prestes a completar 50 anos, ele enfrenta, provavelmente, seu maior desafio. Sem recursos para investimentos ou mesmo para reposição de servidores, a unidade, que oferece serviços gratuitos essenciais a toda região de Bauru, corre o risco de fechar as portas em poucos anos.
Uma solução já em estudo é buscar mobilizar toda a sociedade sobre a importância da sobrevivência do centro, inclusive com a discussão junto a prefeituras para que sejam feitos repasses de recursos para garantir a sustentabilidade financeira da unidade. Há, ainda, a intenção de captar verbas por meio de convênios junto à iniciativa privada e secretarias de Estado (leia mais abaixo).
Embora uma mobilização desta magnitude seja complexa, ela é apontada por fontes ouvidas pelo JC como o caminho possível para assegurar a manutenção das atividades do IPMet, primeiro instituto da América do Sul a antever a importância dos radares meteorológicos para a previsão do tempo de curto prazo.
Até hoje, ele segue fornecendo este tipo de informação 24 horas por dia a muitos municípios do Interior Paulista, algo imprescindível para a prevenção de catástrofes e proteção à vida, especialmente para localidades que, como Bauru, enfrentam o problema crônico de enchentes.
TEMPOS ÁUREOS
Em um passado não tão distante, o IPMet contava com inúmeros pesquisadores, que desenvolviam projetos inovadores, com financiamento de agências de fomento científico que contribuía para a manutenção dos radares do instituto.
"Foi uma época bastante importante, que permitiu uma troca de experiências com pesquisadores na área de meteorologia de várias partes do Brasil e do mundo. Eles vinham ao IPMet, inclusive, para ministrar cursos", acrescenta o professor Jair Lopes Junior, diretor da FC. Porém, com maior intensidade a partir da crise econômica iniciada em 2014, os recursos públicos minguaram.
Justamente naquele ano, o IPMet, que era um instituto, perdeu status e passou a ser denominado Centro de Meteorologia, quando ficou vinculado à FC. Ao longo do tempo, também perdeu todos os seus pesquisadores. "A demanda por pesquisadores acabou sendo deslocada para a contratação de docentes para suprir as necessidades vinculadas ao curso de Bacharelado em Meteorologia, que foi criado em 2013", acrescenta Lopes Junior.
Dentro deste mesmo movimento, o número de servidores do centro foi diminuindo à medida que se aposentavam ou eram exonerados. Somente de setembro de 2020 para cá, a redução foi de 30 para 23 profissionais, incluindo a saída do único engenheiro eletrônico remanescente da casa, que até hoje não foi reposto.
PRIORIDADES
E, mesmo em 2021, em que o governo paulista registra aumento de 20% da arrecadação de ICMS, imposto que financia as universidades estaduais, não há previsão para ampliar a retaguarda ao IPMet. Ainda segundo fontes consultadas pelo JC, a prioridade é investir na contratação de professores, já que o déficit é de pelo menos 800 docentes em todos os campi da Unesp no Estado.
Além de haver esta ordem de preferência, outro complicador é alto custo de eventuais investimentos na operação do centro, já que a maioria dos equipamentos e peças é importada. Para se ter ideia, cada um dos dois radares (um instalado em Bauru e outro em Presidente Prudente) custa em torno de US$ 3 milhões, o que equivale hoje a R$ 15,7 milhões. Já a peça magnetron, considerada o "coração" do radar, é estimada em aproximadamente US$ 70 mil, sendo que o IPMet conta com apenas um exemplar reserva para socorrer os dois radares em caso de falha no funcionamento.