Durante os quarenta anos que convivi e fui educado pelo meu pai e principalmente, claro, durante minha infância, tive várias surras, todas merecidas dele: cintadas, tábuas, unhas, chinelos, fios, o que ele tinha na mão, usava para "educar". Meu pai, durante toda minha convivência com ele, nunca me abraçou, beijou, fez um carinho e quando nos colocava para dormir nunca contou historinhas de ninar ou algo semelhante. Meu pai sempre foi um homem bronco nesse sentido: frio, às vezes distante, em situações normais e se hoje eu não tivesse um entendimento ou filhos que ainda educo talvez tivesse mágoa de meu pai como atualmente perdura entre alguns familiares.
Quando os filhos nascem não nos é dado um manual de conduta, inspiramo-nos no que nosso pai nos ensinou e também no que a sociedade nos fala. Tentei então educar meus filhos diferente do meu pai dando sempre o melhor que podia em relação a bens materiais, carinho e amor. Antes da ida do meu pai para o lar verdadeiro e isso ocorre até hoje, fui aprendendo ao porquê da aparente aspereza de sentimentos dele. A educação que meu progenitor recebeu do pai dele, meu avô Samuel, foi do século retrasado e nesses tempos idos com algumas exceções o carinho e outras demonstrações de amor não eram inerentes à educação.
No entanto, e apesar de, meu pai foi e sempre será um grande homem, lutou para formar com um salário de sargento da Polícia Militar do 4º Batalhão de Caçadores, nove pessoas da família sendo sete filhos, e que nenhum deles se desvirtuou do caminho da retidão. Nunca vi meu pai bêbado apesar de beber o tradicional "rabo de galo" antes do almoço e jantar, nunca vi meu pai agredir minha mãe, brigar com algum estranho, nunca vi meu pai maltratar alguém ou animal, ao contrário, ele cuidava de mais de dez cachorros. Hoje percebo que ele, a seu modo, sempre amou e se dedicou aos seus filhos, as palavras são importantes, mas os exemplos arrastam. Hoje posso dizer com certeza, já quase duas décadas de sua ida ao lar verdadeiro, que amo meu pai com todas as forças desse mundo e entendo perfeitamente suas atitudes.
Não poderia deixar de lembrar mesmo que rapidamente da mulher que esteve ao seu lado por mais de cinquenta anos, em todas intempéries da vida, minha mãe dona Celia que sem ela, ele não conseguia tamanha empreitada. Então você filha, filho, que está brigado com seu pai, triste com alguma atitude que ele tomou, perdoe, pois, tenho certeza que esse erro que ele cometeu em muitos casos, foi para te ajudar e devemos lembrar também somos seres humanos sujeito a erros e equívocos e que vocês filhos, que um dia quem sabe serão pais, só entenderão o que estou dizendo quando e se isso se concretizar. Deus abençoe pai, e pelas leis espirituais até breve.