Tribuna do Leitor

A brasa que nos habita

Benedito J. A. Falcão
| Tempo de leitura: 2 min

Viajando pela Europa, muita coisa nos encanta pela beleza - seja natural, artística ou de engenhosidade. Outras nos tocam pelo contexto histórico... Especialmente aquelas que nos desnudam o paradoxo humano: o fato de que mentes e mãos talentosas, capazes de delicadezas sutis, sejam também responsáveis por atrocidades animalescas...

A mim, algumas obras são simplesmente inesquecíveis... Entre elas o "Memorial dos Livros Queimados", em Berlim. Ironicamente localizado defronte à Faculdade de Direito da Universidade Humboldt, um registro singelo diz muito sobre quem somos. No chão, uma pequena abertura coberta de vidro, nos deixa ver uma biblioteca, com prateleiras brancas, vazias... Ao seu lado, duas placas de ferro. A primeira resume os fatos ali ocorridos em 10 de maio, quando cerca de 20 mil livros foram queimados por estudantes ligados ao nazismo, sob o argumento de que era preciso fazer uma limpeza da literatura e tirar de circulação, punir e eliminar modos de pensar e viver diferentes...

A segunda placa é ainda mais impressionante. Nela uma frase revela o quanto a história é cíclica e o muito que deixamos de aprender com ela: "Onde se queimam livros, pessoas também acabarão sendo queimadas"... A frase foi escrita em 1820 por Henrich Heine, em sua peça Almansor, muito antes do surgimento do nazismo. Vale lembrar também que a queima de livros e pessoas não é um fato isolado na história do mundo, sendo os mais conhecidos a destruição da biblioteca de Alexandria e as barbáries praticadas durante a Inquisição Espanhola.

A simbologia da destruição do conhecimento humano já é narrada em "O mito da caverna", na obra "A República", de Platão, escrita entre 385 - 370 a.C. Posteriormente, outras obras nos descortinaram o perigo da ignorância, facilmente transformada em radicalismo e violência, tais como 1984, Admirável Mundo Novo e Fahrenheit 451.

Nestes livros, o arquétipo de seus personagens e a alegoria de suas narrativas trazem à tona revelações surpreendentes de sociedades mergulhadas em utopias e distopias, nos colocando frente a frente com a realidade, refletida no espelho contemporâneo.

E assim, essas obras (hoje, infelizmente, abandonadas) são como cartas... Cartas que nos chegam do passado e revelam muito sobre o presente... Cartas mostrando que, apesar da passagem do tempo, ainda encontramos mentes presas à profundezas abissais... Olhares talhados para visão limitada e trêmula das sombras... Vidas forjadas em trevas... Trevas tão intensas, que rejeitam a luz do conhecimento, preferindo o delírio pirotécnico do fogo... Fogo silencioso e latente, em brasas ocultas dentro de almas perigosas... Almas que só precisam de um leve sopro de intolerância para ver reacender a chama do fanatismo eufórico e a fogueira do ódio que as habita..

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