Apeou-se da mula quando esta se negou a subir a rua empinada do vilarejo. Tamanho desespero o fez esquecer o sol inclemente das ruas malfeitas. Vestia uma camisa que já fora preta e agora tendia para um verde-militar, filho dos anos e da indiferença. Continuou a pé, parando a cada meia quadra, entregando-se à falta de ar pelo hábito do fumo. Bastou se tornar estatística do desemprego para o vício invadir sua vida. Nada trazia nos bolsos. As mãos agitadas tamborilavam todo o tempo as pernas. Após perder a esposa e os filhos para a bebida, sofrera um infarto, comprometendo o movimento do seu corpo. A igreja pintada de um branco gelo estava emparedada ao boteco e esse abria para o caminho de terra dura por largas portas gentis.
O padre de alpargatas suava pressa e importância; além de orar - "é a vida, o mundo, meu filho" - e providenciar uma cesta básica, buscou na autoridade do bispo uma providência inadiável; o bispo, sensibilizou-se pela causa recorrendo aos fiéis numa campanha em toda comunidade religiosa. Necessário socorrê-lo. Socorrê-lo era necessário. Decidida, a população buscou nos vereadores uma resposta, que em pautas, reuniões, decretos, deliberações chegaram a uma conclusão. Era mais que necessário amparar o pobre, proporcionar-lhe condições dignas de vida, tratá-lo como cidadão, dar-lhe o que é de direito. Com o dedo em riste, canetas edis acolhem o apelo circunstancial. Trazer ao relevo das verdades o responsável pela situação. O discurso, embora inflamado, acrescenta pouco à coleção do pobre homem de um mau cheiro persistente, que ainda permanece em silêncio de paralelepípedo no lado de fora. Os olhos muito abertos miram a parede branca oposta à sua sujeira. De futuro incerto, ele não tem certeza de nada; não sabe se deve escrever Deus ou deus. Sua fome - doença ou nascença - dialoga em ossos e medula.
A prefeitura de rua asfaltada, café e ar-condicionado toma conhecimento. Em comissões com o secretariado, busca uma perspectiva para minorar o porquê de a crise econômica caminhar a passos rápidos, abater intensamente a cidade; a repercussão desquietava jornais, rádios; entrevistas, manifestações, depoimentos, manchetes, projeções transformavam-se em dias penitenciários; a situação era grave; algo precisava ser feito com urgência. Tal qual uma célula cancerígena cuja meta é se reproduzir sem cessar, a velocidade da desgraça fugia do perímetro urbana vestindo toda a região de um inevitável desassossego. Com argumentos de terno engomado, o governo estadual determina um pacote de medidas estruturais que atinja o DNA do problema; partidos e coligações acotovelam-se na tribuna. Na coletiva de imprensa, o carimbo da repartição pública, a conversa flácida do expediente de ponto despacham o assunto para o governo federal. Fome, desemprego, corrupção, violência, não mais suportando o país tamanha falta de perspectiva, o microfone congressual decreta que, pouco importando a quem doesse, a punição, para quem a merecesse, seria certeira, firme e exemplar. Instalada a comissão de inquérito, o resultado é logo aplaudido pela habilidade da apuração. Identificado e preso, enfim, o corrupto homem; o infeliz auxiliar de limpeza, reincidente nas coisas do roubar, olhem isso, empalmava em cada lavagem com o sabão em pó uma quantidade do pozinho. O danado lesava cortinas e tapetes de tão digníssimos deputados.
O autor é professor e autor de artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa