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De olho na crise atual, economistas projetam 2022 de 'cintos apertados'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A crise econômica brasileira deverá invadir 2022 sem perspectivas de ser contornada ao menos na primeira metade do ano. A projeção de um futuro ainda de dificuldades para o ano que vem é feita por especialistas que lideraram o "Encontro de Dirigentes", realizado de forma online nesta última semana pela Fundação Dom Cabral, em parceria com Reinaldo Cafeo Soluções em Gestão.

Além do economista e consultor empresarial Reinaldo Cafeo, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), o economista Heron do Carmo, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), também traçou perspectivas para o próximo ano. Ele destacou que a inflação deverá continuar em patamar elevado nos primeiros meses de 2022, em torno de 8,5%, principalmente pelo efeito do choque de preços dos combustíveis e da energia elétrica.

E a renda das famílias não deverá ser recomposta na mesma proporção, considerando, também, que milhões de brasileiros ainda seguirão na fila do desemprego. A tendência, neste contexto, é de que a economia continue enfraquecida, com juros em alta, além da própria inflação, que continuará corroendo o poder de compra da população, podendo chegar ao mínimo de 6% até o fim do próximo ano.

Há, também, perspectiva de o dólar seguir valorizado, no patamar mínimo de R$ 5,50 para os próximos meses e para o ano que vem. Assim, não está descartada a possibilidade de o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficar abaixo de 1% em 2022, conforme prevê Heron do Carmo, que coordenou, por muitos anos, as pesquisas de preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

SETORES PRODUTIVOS

No encontro, que teve o objetivo de responder a pergunta "Como será a economia em 2022?", os dois economistas também indicaram prováveis cenários para os setores produtivos, trazendo um alerta de cautela diante do quadro econômico e político de incertezas neste e no próximo ano, em que o Brasil terá eleições presidenciais.

"Se a inflação recuar, como se espera, a partir de abril do próximo ano, poderemos ter um alento maior em termos de consumo. E, se tivermos uma conjunção de fatores, que vão da evolução da crise política nacional até o comportamento favorável da economia mundial, o Brasil poderá se tornar relativamente mais atrativo para investimentos", frisa do Carmo.

Já Cafeo destaca que a pandemia trouxe aprendizado para micro, pequenas e médias empresas sobre a necessidade de preservar o capital de giro e lembra que, historicamente, os primeiros anos pós-eleições costumam ser de forte crescimento, com criação de oportunidades. "As condições macroeconômicas não são tão favoráveis, mas o brasileiro sabe lidar com a adversidade e quem tiver competência pode tirar vantagem no futuro", completa.

PREOCUPAÇÃO FISCAL

O governo federal levou ao Congresso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que pretende adiar o pagamento de precatórios (dívidas judiciais da União) e ainda sinaliza que pode elevar o valor do novo Bolsa Família antes da melhora do cenário econômico. Segundo Reinaldo Cafeo, as incertezas sobre os desdobramentos destas e outras medidas fiscais têm trazido maior risco ao ambiente de negócios.

"Apesar de reformas que foram realizadas, como a da Previdência e a Trabalhista, o gasto público segue crescendo ano a ano, acima do crescimento do PIB. E este gasto pressiona ainda mais as contas públicas em períodos de crise, que já se alonga desde 2015. E é muito difícil resolver o problema fiscal sem o País ter crescimento econômico", analisa Heron do Carmo.

AGROPECUÁRIA

Sobre o setor agrícola, do Carmo analisa que o segmento sofreu relativamente pouco com a pandemia, tendo como "único fator de perturbação" os impactos do clima.

"A crise hídrica acaba afetando o setor. Tivemos atraso no plantio da safra de soja, problemas também na safrinha de milho e há indicadores de que isso pode afetar culturas que atendem o mercado interno, como é o caso do feijão, o que pode repercutir nos preços no final do ano", frisa.

INDÚSTRIA

Uma dificuldade enfrentada pela indústria no Brasil e no mundo durante a pandemia deu-se pela desarticulação das cadeias produtivas, em que alguns setores importantes interromperam ao menos parcialmente suas atividades e, depois, demoraram a conseguir atender uma demanda crescente. A tendência, contudo, é de que isso se normalize, projetam os economistas.

JUROS EM ALTA

A alta da taxa de juros em países desenvolvidos tem potencial para reduzir a demanda e, consequentemente, o preço de alguns insumos, como é o caso de minério de ferro e aço, que está em patamar elevado. Com isso, há perspectiva de queda de custos para os segmentos que utilizam este tipo de matéria-prima, como é o caso da construção civil.

"Porém, o setor de construção pode ser impactado por dois efeitos. Um é o fato de o País não crescer e continuar com inflação alta, o que afeta o rendimento das pessoas e o outro é o encarecimento do crédito, inclusive para o setor habitacional, que deve inibir os financiamentos", completa do Carmo.

COMÉRCIO E SERVIÇOS

Hoje, 70% da matriz econômica de Bauru é formada por estes comércio e serviços, que são os principais geradores de empregos. Segundo do Carmo, eles deverão ser o motor da economia a partir do segundo semestre de 2022, mas ainda sem recuperar os níveis de 2019.

A exceção, de acordo com o economista, serão segmentos de turismo, hotelaria, entretenimento e alimentação fora do domicílio, que devem continuar aquecidos devido à demanda reprimida durante a pandemia. "Mas o ritmo de evolução destes setores, que também são fundamentais para a geração de empregos, ainda precisará ser observado", completa.

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