A pandemia da Covid-19, que impôs distanciamento social e a necessidade de que muitas tarefas passassem a ser realizadas de forma remota, explicitou o quanto a Tecnologia da Informação (TI) tem relevância no mundo contemporâneo. Mas, na Prefeitura de Bauru, o departamento que lida com estas ferramentas, também por falta de investimento, permanece com potencial inexplorado, sem conseguir ter dimensão adequada para o que os novos tempos exigem.
Trata-se de uma deficiência que está no centro de uma ampla discussão conduzida por diversas entidades, incluindo a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Municipal, presidida pelo vereador Mané Losila (MDB). Conforme o JC apurou, os bancos de dados das secretarias municipais não são integrados uns aos outros, o que faz com que elas funcionem como verdadeiras 'ilhas', fornecendo à administração pública uma visão fragmentada da realidade dos moradores.
O dado de uma criança que utiliza serviços da Secretaria de Saúde, por exemplo, não pode ser cruzado com informações de outras pastas em que ela também pode estar sendo atendida, como Educação, Bem-Estar Social, Esportes e Cultura. Assim, sem ter condições de reconhecer os cidadãos de forma global, o município segue, de certa forma, com olhos parcialmente vendados para os problemas da cidade.
'INTERCONEXÃO'
Um exemplo desta dificuldade foi vivenciado pela vereadora Chiara Ranieri (DEM), que demorou a obter dados sobre crianças de 0 a 6 anos em Bauru, para um levantamento voltado ao cumprimento das exigências do Marco Legal da Primeira Infância, de 2016, inclusive quanto à elaboração do Plano Municipal da Primeira Infância. "Não há registro sobre tudo aquilo que o município oferece especificamente para uma mesma criança. Esta interconexão entre as pastas é fundamental, mas, hoje, é muito difícil de ser enxergada", avalia.
Considerando que a era digital dava seus primeiros passos há 40 anos, parece urgente que o poder público busque adequar suas tecnologias, inclusive para integrar seu banco de dados e, assim, conhecer melhor as características da população, algo considerável imprescindível para nortear políticas públicas mais assertivas.
Além de garantir melhor qualidade de vida aos cidadãos e fomentar o desenvolvimento da cidade, a medida também pode contribuir para otimizar serviços e reduzir custos aos cofres municipais, conforme analisa o advogado Maurício Augusto de Souza Ruiz, presidente da Comissão de Direito Digital e Inovação da OAB Bauru e vice-presidente do Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação.
RETORNO
"Existem pesquisas que indicam que, de cada R$ 1,00 investido em tecnologia e informação, o município economiza até R$ 8,00 no médio e longo prazos, pela eficácia que ela traz. Mas, infelizmente, mesmo tendo bons profissionais, Bauru permaneceu décadas estacionado em relação à evolução tecnológica", observa.
Como exemplo desta defasagem em relação às possibilidades oferecidas pela tecnologia, o vereador Junior Rodrigues (PSD) cita que a Secretaria de Saúde já tem uma rede integrada entre suas unidades, porém, até hoje, as fichas dos pacientes são preenchidas à mão, para depois serem inseridas no sistema online.
Já Chiara lembra que, até hoje, muitos projetos da Secretaria de Planejamento não foram recuperados, após 'apagão' de arquivos digitais ocorrido em 2019. "As crianças só entram no banco de dados da Secretaria de Educação quando os pais precisam de vaga em escola e acessam a central da pasta. Ou seja, o mapa sobre a necessidade de vagas para os próximos anos é precário".