"Doutor, não me deixe morrer. Doutor, eu tenho dois filhos, não posso morrer agora. Doutor, vou me casar, estou começando a vida, por favor, me ajude, não me deixe morrer. Doutor, meu neto está me esperando em casa". Essas frases não são de efeito. São reais e foram ouvidas com frequência ao longo de 18 meses pelo médico cardiologista Christiano Roberto Barros, que trabalha na UTI do Hospital Estadual de Bauru, referência para o tratamento da Covid-19.
Após um ano e meio, com os pedidos ainda latentes na cabeça, ele postou em suas redes sociais um relato emocionado sobre as batalhas enfrentadas neste período. "Vivemos isso diariamente por 18 meses. Dezoito, com medo, mas seguimos", aponta. Agora, com o arrefecimento da pandemia e diante da recente queda no número de casos e mortes, contexto que trouxe alívio e esperança, sobretudo aos profissionais que encaram a linha de frente nos hospitais, Barros destacou o empenho e bravura das equipes de Saúde contra a doença.
"Hoje, os números mostram que praticamente o pior já passou. Estamos meio que em estado de graça, ainda incrédulos com tudo que aconteceu, mas felizes por ter chegado ao fim", afirma o médico. No texto publicado no último final de semana, ele enfatizou também o sofrimento das famílias que perderam seus entes para a doença.
"Às vezes, mais de um da mesma família. Perdas que palavras jamais serão capazes de descrever tamanha dor. Mas este texto é para agradecer, em público, todos, e foram vários, que estiveram ao meu lado e ao lado de tantos que viveram uma intensa batalha nessa pandemia. Sim, foi uma batalha diária, sem trégua, em que o dia a dia consumia o que há de mais nobre no ser humano, que é a sua esperança", frisa.
MEDO E DOR
Barros, que desde 2003 atua no HE, narra ter vivenciado medo constante, cansaço físico e mental, além de experenciar uma sensação de impotência frente a muitas situações de quadros graves. Na mensagem, o cardiologista ainda agradece todos os profissionais.
"Colegas médicos que se doaram desde o início, mesmo sem saber se seriam acometidos pela doença e como se sairiam, ainda assim, continuaram dedicados e empenhados. Aos enfermeiros que, diariamente, sofreram e estiveram expostos como nunca, mas jamais deixaram de cuidar. Aos fisioterapeutas que se multiplicaram e puderam, com certeza, junto de toda equipe, salvar várias vidas. Aos técnicos e auxiliares que, apesar de tudo que envolvia o cuidado, se desdobraram em plantões intermináveis e estavam sempre lá. À equipe da limpeza, que sempre com sorriso teve papel fundamental no preparo pré e pós-recebimento dos nossos pacientes. À farmácia, que se desdobrou em equalizar a demanda interminável de medicações, para que todos tivessem a melhor assistência. À nutrição, que diariamente em nossas visitas agregavam conhecimento para podermos reabilitar nossos pacientes que ficavam 30, 60, 90 dias internados. À psicologia e ao serviço social, que nos aproximavam dos familiares e tentavam dar um pouco de humanidade a uma situação tão desumana", elenca.
Barros finaliza dizendo que os profissionais em questão não querem ser rotulados como heróis, mas sim como humanos, que lutaram contra a doença com as armas que tinham. E pede que haja, ao menos, reconhecimento da importância dessas categorias para a Saúde.
"Não sou de falar de politicas, mas gostaria do fundo do coração, que nós, profissionais de Saúde, não fossemos esquecidos e que pudéssemos ser reconhecidos por nossos governantes, que tivéssemos nossas demandas, ao menos, analisadas. Enfim, são tantas (demandas). Só peço que, com o fim da pandemia, não se esqueçam, pois jamais quisemos ser heróis, mas tampouco somos os vilões. Somos humanos e lutamos com as armas que tínhamos e com muita fé e coragem. Que venham os dias de alegria...", finaliza o médico.