Padre e discípulo zen, Pablo d'Ors virou escritor best-seller na Espanha há uma década com um livro breve, mas profundo, sobre sua relação com a meditação. "Biografia do Silêncio", que chega agora ao País, sugere que a partir de algo simples como sentar, respirar e calar é possível começar uma transformação interior. É um livro sobre meditação, e como meditação, para o autor, é vida, este é um livro sobre um novo modo de estar no mundo. Na obra, ele fala sobre os desafios do começo, como a descoberta de que pode ser insuportável estarmos sozinhos conosco. "Meditar ajuda a não nos levarmos tão a sério", acredita.
O método parece simples: sentar, respirar, calar. Mas como ter algum êxito num mundo de tempos nebulosos?
Pablo d'Ors - O método que ofereço para aprender a meditar é simples: basta se sentar com as costas retas, ficar quieto, recitar uma palavra sagrada - por exemplo, Maranathá - no ritmo da sua respiração, focando sua atenção no centro das palmas das mãos, que devem estar interligadas, seja no colo ou na altura do coração. Isso é tudo. Você tem sucesso perseverando no fracasso. Não se trata de mudar sua vida, não há nada a mudar. Basta dedicar 25 minutos por dia a essa prática e a vida muda sem que a gente perceba. O que acontece conosco é que, no fundo, não queremos mudar.
Fala-se hoje, depois do coronavírus, em epidemia de saúde mental. Vivemos um medo constante. Por outro lado, ela também provocou mudanças de hábitos. Como o senhor vê esse momento?
Pablo d'Ors - Esta pandemia nos enviou uma mensagem ética e uma mensagem mística. A ética nos diz que temos que mudar nossas vidas: que não podemos continuar viajando feito loucos, consumindo sem parar, desperdiçando recursos do planeta. A mística nos diz que somos todos um, que estamos interligados. Esta descoberta, em nível planetário, é nova na história da humanidade, pois nunca vivemos uma crise tão global. Vivi esta situação crítica como qualquer outra pessoa: com incerteza, ou seja, com medo, preocupação, ansiedade. Mas também com esperança. A esperança não é mero otimismo. A esperança é uma virtude, algo que pode ser cultivado. Todos os meus esforços visam mostrar que somos responsáveis por como nos sentimos e, em última instância, pelo que nos acontece. Por outro lado, nenhuma mudança social que não passe por mudança pessoal é sólida e confiável. Seja você a mudança que espera do mundo.
Como o senhor diz, meditar é pular de cabeça na realidade, o caminho para nos abrirmos para a dor.
Pablo d'Ors - A realidade é muito mais sábia do que qualquer ideia que possamos ter dela. Tudo de grande e belo que esta vida oferece, como responder a uma vocação, ter um filho, escrever um livro, escalar uma montanha, amar outro ser humano, implica uma certa dor. Nada é feito de forma simples e apenas com prazer. Se você elimina a dor, elimina a vida. Cada vez que você se protege para não sofrer, você se impede de viver. Muito mais do que a própria dor, o que nos destrói é a nossa resistência a ela.
O senhor escreve que estamos vivendo, sim, mas que muito frequentemente estamos morrendo. Que pensamos demais e, por isso, agimos pouco. O que precisamos aprender para começar a viver?
Pablo d'Ors - As pessoas não são divididas em crentes ou não crentes, nem em negros ou brancos, bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, mas sim em vivos e mortos, acordados ou dormindo. O que temos de fazer é acordar, perceber, desfrutar. Desfrutar é comungar com o que existe. Não estamos aproveitando, não estamos entregues às coisas, situações ou pessoas; estamos bastante divididos, quebrados, fragmentados. O grande desafio é a unidade, a harmonia, a comunhão. Em vez de nos ajudar a entrar na realidade, o pensamento muitas vezes nos separa dela. Tudo bem pensar, mas não sem antes contemplar, receber, acolher. Primeiro você tem de se deixar afetar pelo que a vida nos oferece, e só então pensar nisso.
Existe alguma coisa nessa linha que podemos ensinar às crianças desde pequenas?
Pablo d'Ors - As crianças precisam ser deixadas um pouco em paz e também que deixemos elas serem crianças: que brinquem, se aborreçam, protestem, se zanguem. O melhor serviço que podemos prestar às crianças é ser quem temos de ser. Se você deseja que seu filho ore ou medite, por exemplo, ore ou medite e o resto virá como consequência.
O senhor escreve: "A meditação ajuda a recuperar a infância perdida".
Pablo d'Ors - Quando éramos crianças, não tínhamos preconceitos. Isso nos fazia curtir uma viagem de carro, um dia na praia, um bolo de chocolate, uma formiguinha. Não tínhamos pressão por desempenho. Era vida, sem mais. Não se trata de, agora, como adultos, recuperarmos a ingenuidade infantil, mas sim de uma espécie de ingenuidade lúcida: a lucidez de quem já viveu e retorna ao elementar, sabendo que é aí que o essencial se esconde.
Precisamos aprender a rir de nós e a rir à toa?
Pablo d'Ors - Sem dúvida. Tudo seria muito melhor para nós se ríssemos mais, principalmente de nós mesmos. Ver o lado engraçado das coisas pelas quais temos de passar é o princípio da sabedoria. Ou o final. Para mim, há duas coisas que me aliviam da gravidade com que a vida às vezes se apresenta a nós: religião e humor. Precisamos de mais leveza, o que não quer dizer que não existam momentos que também nos exigem atitudes sérias e até mesmo drásticas. Quando rimos, a mente perde o controle e o corpo se liberta.
Qual foi a principal lição que a meditação te ensinou?
Pablo dOrs - Que não devo escapar da vida. A meditação me ensinou e continua a me ensinar a conviver com quem eu sou.
O que descobriremos quando formos, enfim, capazes de ouvir o silêncio?
Pablo dOrs - Que o silêncio não é nada e é tudo. Que somos espaço, ou seja, pura possibilidade. Que só nesse espaço ressoa a voz da sua consciência. Aquela voz que lhe diz que você pode confiar que todas as coisas conspiram para que você seja quem foi chamado a ser.