Colocada em prática pela Secretaria Municipal de Saúde no fim de setembro deste ano por recomendação do Ministério da Saúde, a revisão do total de confirmações do novo coronavírus em Bauru é alvo de críticas de cientista de dados. Até esta terça-feira (26), 1.703 casos haviam sido excluídos de boletins epidemiológicos pela prefeitura. Para Wallace Casaca, coordenador da plataforma SP Covid-19 Info Tracker - desenvolvida por pesquisadores da USP e Unesp com objetivo de acompanhar a pandemia nos municípios paulistas -, a revisão coloca em xeque a credibilidade das estatísticas já divulgadas, além de inviabilizar cálculos para fins de projeção sobre a evolução da Covid-19 na cidade.
O município, por sua vez, trata a correção como comum e necessária e defende que a reavaliação traz, inclusive, mais credibilidade aos dados.
Segundo Casaca, das 92 cidades acompanhadas pelo Info Tracker, apenas Bauru reverteu mais de 1 mil casos da doença em apenas um dia, após realizar a revisão recomendada no e-SUS pelo Ministério da Saúde.
A última atualização do boletim epidemiológico, divulgada pela prefeitura na sexta-feira (22), trazia um total 59.134 casos confirmados de Covid-19.
Em 29 de setembro, quando a Saúde iniciou as revisões, contudo, Bauru tinha 60.533 confirmações da doença. Na data, 1.602 casos foram revisados e anulados, baixando o total de contaminações para 58.931. No dia seguinte, mais 57 casos foram excluídos, e, em 1 de outubro, mais 44. Vale lembrar, entretanto, que, embora essas baixas tenham ocorrido, a cidade também computou novos casos da doença.
Depois desta última data, o município interrompeu o processo de revisão, mas a intenção da Divisão de Vigilância Epidemiológica é de retomar a reavaliação. Segundo a diretora da divisão, Meire Pranuvi, 40 mil casos ainda serão revisados por suspeita de duplicidade no sistema ou por terem sido registrados na e-SUS com exames que, hoje, não são considerados confiáveis para fins de notificação.
SEM SOLIDEZ
Cientista de dados, Wallace Casaca considera, no entanto, que a continuidade deste processo pela prefeitura pode gerar dúvidas na população e até prejudicar cálculos que balizam políticas públicas.
"Esse esvaziamento gera insegurança e é muito ruim também para quem acompanha a estatística, porque mexe com toda a série de dados do passado, quebra o histórico, tira a solidez. Isso inviabiliza os cálculos e projeções, que são utilizadas para tomadas de decisões e análise da situação atual", aponta o pesquisador. "O total de casos é importante por indicar como o contágio se propaga e qual a velocidade disso. Se os dados continuarem sendo esvaziados, não haverá mais sentido o acompanhamento. Isso coloca em xeque o comportamento da pandemia, justamente quando a delta já começa a apresentar efeitos", completa o cientista.
Ainda de acordo com Casaca, Carapicuíba e São Paulo também revisaram dados, mas nada comparado ao resultado obtido por Bauru.
"Foi a única cidade que eliminou mil casos em apenas um dia. Por que só aí [em Bauru] isso tem ocorrido? Será que o protocolo não foi seguido em todo este tempo? Coincidência ou não, dá a impressão de que é uma medida que parece seguir uma agenda eleitoral", aponta o pesquisador.
DADOS CORRIGIDOS
Meire Pranuvi, da Vigilância Epidemiológica, rebate que a revisão não coloca em xeque a credibilidade das informações já difundidas. "O que foi já divulgado era real, era o que tínhamos. Agora, com a correção no e-SUS, podemos ter dados mais reais ainda, corrigidos. De forma alguma essa revisão minimiza ou alivia a gravidade da pandemia", ressalta a diretora da Saúde.