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Após 45 anos de buscas e saudade, mulher reencontra irmãos em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Foi de Mamborê, cidade paranaense com pouco mais de 10 mil habitantes, que a empregada doméstica Maria Aparecida Cardoso fugiu, ainda adolescente, para escapar da violência do pai, alcoólatra. Desde então, ela nunca mais teve notícias da família, incluindo a mãe e os quatro irmãos. Mas, depois de longos 45 anos, permeados por buscas, angústias e saudade, Maria conseguiu localizar três deles e os reencontrou em Bauru, neste mês. O momento, que marcou o resgate de sua história, foi cercado de emoção e lembranças.

"Foi uma grande alegria. Cheguei a achar que iria morrer sem rever meus irmãos. Todo Natal ou data festiva, só éramos eu e meus dois filhos, sozinhos no mundo. Agora, este fim de ano vai ser diferente", projeta.

A felicidade só não foi completa porque o paradeiro do irmão Valdecir, 56 anos - que foi dado pela mãe em uma rodoviária do Paraná, na década de 1970 -, permanece desconhecido. Da mesma forma, a doméstica não sabe onde está sua filha mais velha, Rosenilda, 44 anos, que ela acabou dando ainda recém-nascida a uma desconhecida, em uma rua de Curitiba, após ser pressionada pela patroa.

"Eu me tornei mãe aos 15 anos e consegui uma oportunidade de emprego em uma casa, mas, com uma criança nos braços, não poderia ficar. Eu tinha acabado de me mudar para Curitiba e não tinha ninguém para me ajudar. Só Deus", relata, demonstrando arrependimento.

ABRAÇO DA MÃE

Além da sensação de incompletude por ainda não ter reencontrado Valdecir e Rosenilda, Maria lamenta não ter conseguido localizar a família a tempo de voltar a abraçar a mãe, também chamada Maria, que acabou morrendo em 2015. O pai havia falecido mais de 20 anos atrás.

Por outro lado, além dos irmãos Carlos, 58 anos, José Donizete, 47 anos, e Nildete, 45 anos, Maria descobriu ter mais uma irmã, Janete, 40 anos, fruto de um segundo relacionamento de sua mãe. "Fiquei muito feliz, mas só vou sossegar de verdade quando encontrar esse meu irmão e minha filha", garante.

PERDAS

Quando Maria, hoje com 59 anos, narra os fatos mais marcantes de sua vida, fica evidente que sua trajetória foi atravessada pela dor. Logo depois de fugir de Mamborê para Curitiba, aos 14 anos, ela engravidou de Rosenilda, de quem se separou de forma precoce.

Anos depois, já casada e morando em Campo Mourão, teve mais três filhos, sendo que o caçula morreu com um tiro na cabeça ao brincar de 'roleta-russa', em 2003. O marido foi vítima de um infarto meses depois.

Maria batalhou a vida toda trabalhando como empregada doméstica e não chegou a aprender a ler e escrever.

Mas, mesmo diante de todas as dificuldades, nunca desistiu do sonho de reencontrar a família. Porém, apenas mais recentemente, com a ajuda de uma amiga, descobriu que poderia divulgar sua história nas redes sociais. Mesmo assim, foram longos cinco anos sem respostas.

JUNTOS

Tudo mudou quando essa amiga fez contato com o jornal Tribuna do Interior, de Campo Mourão. "Eles publicaram uma matéria e, cerca de dez dias depois, eu já estava falando com meus irmãos pelo celular", relembra.

Foi quando ela descobriu que a matriarca, junto com Carlos, José e Nildete, tinha se mudado para Bauru, ainda na década de 1980. Segundo José, durante todo este tempo de afastamento, a família também tentou, por diversas vezes, localizar Maria.

"Sempre soubemos da existência dela, nossa mãe sempre falava, toda a vida chorou pela filha desaparecida. Buscávamos alguma pista sobre onde ela poderia estar, mas nunca encontramos. Uma pena nossa mãe não ter conseguido revê-la, mas estamos felizes porque os irmãos vão poder seguir juntos a partir de agora", diz. Atualmente, Maria mora em Campo Mourão; Carlos, Nildete e Janete, em Bauru; e José, em Jundiaí.

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