Importante foi o texto do editor João Varella, de um mês atrás, sobre as livrarias sem alma, nas palavras dele, quanto ao novo tipo de vendas de livros, online na maioria, sem direcionamento literário muitas vezes. Mas, como os números indicam, dizer a importância dos livros se restringe a pregar para convertidos. O desinteresse vem de uma contínua e profícua antipolítica cultural da manutenção da ignorância para o fácil domínio, bem o sabemos. O livro é antigo, sua impressão, moderna, e ainda sobrevive em outros formatos, pergaminho e manuscrito que já foi. Certo que o de papel não sucumbe a mudanças de softwares, configurações e sistemas operacionais, uma vez que o nervo óptico do leitor continua operando do mesmo modo. Assim, parodiando o poeta, fica a dúvida: livros? Se não lê-los, como sabê-los?
No entanto, há exemplos de boa análise literária e indicações de livros. Na revista 'Quatro Cinco Um', de outubro, registra-se como muito original e sensível combinar Conceição Evaristo com Anne Frank, a brasileira resgatando suas escrevivências à luz da jovem alemã por meio da releitura do famoso diário. Aprendemos também que a própria Anne Frank contribuiu para a censura a partes íntimas do diário, fato antes relegado somente a seu pai Otto. Em resenhas apreendem-se conteúdos.
Discordo, portanto, em parte da análise pessimista sobre os livros. Depois do deleite quanto ao Nobel de Literatura para o africano Abdulrazak Gurnah, acompanhamos a entrega de outros prêmios importantes em língua portuguesa. Trouxe satisfação ver a escritora moçambicana Paulina Chiziane ser premiada com o Prêmio Camões deste ano. Sua literatura libertária e reveladora da condição feminina africana passará a ser mais lida e conhecida deste lado do Atlântico. O Prêmio Machado de Assis ao jornalista e escritor Ruy Castro é significativo pelas biografias que escreve e a forma ímpar com que mescla música e política em seus artigos. Seguimos nas leituras.
O autor é pesquisador na Unesp de Rio Claro.