As mãos envelhecidas buscavam paz macia na novena das quatro e quarenta e três na igreja Santa Luzia. As orações ajoelhavam até tardezinha cheirando à noite. Reza cumprida. Sua fé era seu maior capital. Aprendera com mãe. Acordava e dormia disposta a ser útil. Mãe de cinco filhos, três bem aprumados, enquanto os outros ainda dividiam o mesmo teto ainda com ela. Um de 42 e outra de 44, avessos ao casamento. Não imaginavam unir escovas de dente, compartilhar aspirinas, apossar-se do chinelo alheio. Carregava seus 77, arrastando seu cansaço com a perna direita. De birote, vestida dos afazeres da casa, mornava o leite da tarde com pão de milho e uma hóstia de queijo. Hora do café. Dava pra reconhecer o esforço trêmulo com que segurava o pão. Ainda assim, não se entregava ao fastio das obrigações.
Aos domingos, preparava feijão com frango e ovo caipira. Recebia a alegria gorda dos filhos mastigarem o almoço prolongado com laranja baiana e doce de coco. Ela estalava em risadas de satisfação do encontro familiar; também sempre escapava uma piada presa no coro e no pilão entregues na graça. No bairro, todos a conheciam. Uma tarde, soube pela vizinha que a vendedora de ovos entrou na igreja. Tão logo essa dobrou a saia, ajoelhou pra rezar. Ah, dava pra pensar, do jeito que a tal ajoelhou, o diabo alisou o chifre gargalhando.
Na manhã de segunda de sol, obstinada aos afazeres da casa, ocupava-se com as roupas. Passadeira. Inconformada com o amassado da camisa, se comovia por ensinar à pele a noção de tempo; o que deixamos impresso de nós no que vestimos; o que fica da gente na roupa despida. Um dia, noite alta de quarta-feira, azedou-se em limoeiro de vida rilhando os dentes. Também, vivia uma vida que mais tirou do que lhe deu. Viver pra imaginar um filho hidratar em pouco caso a bronca da fervura dos pais, ouvir gente tomar soro azedo mas arrotar coalhada com açúcar mascavo; conviver com calmaria dormida da sombra - cuidado - a esquina grita susto, de gente entregue ao silêncio demorado - meu Deus; essa gente maldiz, da língua ferina que faz morada. A natureza, sempre sábia, avisa que nos rios mais calmos vive a cobra grande.
Depois que enviuvou, deixou de viver na primeira pessoa do plural. Liquidou o nós pelo eu. O guarda-chuva, abandonado num canto do quintal, ganhava a solidão metafísica das esperas acumulativas. Aos poucos, esqueceu-se das plantas; e por esquecer as plantas, deixou o quintal e por não se lembrar do quintal, ficaram as roupas estendidas no varal. Na cozinha, um avental enrijecido de uma mancha amarronzada; doce que preparara há três semanas, dos aniversários dos netos que se repetiam em tardes de brigadeiro.
Assim, deixou um vestido branco órfão de par, um frasco de colônia analfabeta de sentidos, um salto para pés virgens de valsa, um relógio discreto de prata para braços sem tempo de ver a hora passar, um travesseiro sem fronha disposto a acolher com compaixão desabrigados que se exilaram em seus sonhos; um rádio obediente a rimas, um vaso com bromélia urgente de primavera, uma barra de sabão neutro usada pela impaciência da limpeza, uma leiteira sem cabo como sinal de desprendimento, duas fronhas bordadas em lilás para lembranças de lavanda e um espelho ovalado de corpo todo que, esquecido num canto do quarto, encosta sua inutilidade por saber que a velha viveu sem enxergar.
O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa.