"Posso te fazer uma pergunta rápida? Rapidamente, assim de pingue-pongue, o que você sentiu pelo Luca?", pergunta Rodrigo Santoro ao repórter durante entrevista exclusiva à reportagem para falar sobre o filme "7 Prisioneiros", em cartaz na na Netflix. Ao ouvir a palavra "asco", ele concorda: "Eu também, enquanto ser humano".
Porém, como ator, foi preciso evitar ao máximo fazer julgamentos, o que não foi algo exatamente fácil. Luca é o chefe de um ferro-velho que emprega jovens recém-chegados do Interior na capital paulista. Eles vêm com a expectativa de melhorar de vida e poder ajudar as respectivas famílias, mas descobrem uma realidade brutal.
O filme mostra um Santoro muito diferente do que o público está acostumado, bem distante dos galãs que já fez em novelas, mas também de qualquer estereótipo de vilão. "Eu estava ali fazendo um trabalho, me emprestando para fazer para expressar aquele personagem dentro daquela realidade", comenta.
"Naturalmente, foi inevitável o julgamento que eu acabava fazendo das próprias atitudes dele", afirma. "Eu mesmo me pegava falando: 'Está meio demais isso aqui, precisa?'. 'Precisa, é assim mesmo'. Então foi um trabalho interno de questionamento de conforto muito grande."
O ator avalia que o personagem não poderia estar mais longe dele, mas tentou entender suas motivações. "Eu me considero um privilegiado, cresci numa família de classe média", diz. "O Luca tem até uma fala em que diz de onde veio, uma realidade muito distante da minha, da qual eu já tinha me aproximado em outros trabalhos, mas desta vez me aproximei com mais profundidade."
As maldades cometidas por Luca contra os empregados, que acabam em situação análoga à escravidão, além do envolvimento com tráfico de seres humanos, ficavam no set. Mas isso não significa que os sentimentos ruins gerados por aquelas ações não transbordavam para a vida.
"Mexeu muito comigo", admite o ator. "Quando eu chegava em casa, quem abria a porta para mim era uma criança de 2 anos, [idade da] minha filha naquele momento, e não podia ser mais difícil. Ela vinha cheia de amor, falando: 'Papai, papai...'. E eu falava: 'O papai vai tomar um banho'. Eu me sentia muito sujo mesmo, fisicamente. Eu precisava..."
Ele diz que era difícil conseguir separar o profissional e o pessoal nesses momentos. "Tinha consciência, não estava perdido na realidade da personagem, mas fica um pouco impregnado porque estava passando o dia inteiro ali no set."
O fato de o personagem ser complexo, tridimensional, não aliviava o peso das ações dele. Até porque o passado de Luca vai sendo desvendado aos poucos. O ator, no entanto, diz que a ideia não era isentar Luca de suas responsabilidades.
"Uma preocupação que eu tinha era encontrar a melhor forma de humanizar esse personagem", afirma o ator. "Não redimir, muito pelo contrário. Acho que o Luca é um explorador, vive da exploração de trabalhadores nesse ferro-velho, é plenamente consciente das coisas terríveis que faz e não pede desculpa."
"Ele tem o seu próprio discurso em relação a tudo que passou na vida, mas acho que o Luca também não deixa de ser o produto dessa ferida profunda que a gente tem que é desigualdade social, que é um sistema absolutamente excludente", avalia. "Ao mesmo tempo, é uma linha muito tênue, porque a gente não pode colocar ele como alguém que pode ser redimido das coisas que está fazendo. Então é um equilíbrio bastante delicado."