Cultura

'Encanto' lembra Shakira e realismo fantástico de García Márquez

Leonardo Sanchez
| Tempo de leitura: 2 min

Entre as montanhas verdes da região amazônica, uma casa de cores vibrantes se ergue de forma fantasiosa. Um povoado humilde orbita aquela construção imponente, adornada ainda por flores e animais como tucanos, capivaras e onças. Do lado de dentro, uma grande família troca beijos e abraços de forma constante e apesar das brigas. Poderia ser o Brasil, mas "Encanto", na verdade, se passa na Colômbia.

Nem por isso a 60ª animação do Walt Disney Animation Studios - que estreia hoje nos cinemas de Bauru -  deixa de ter um valor especial para os brasileiros - e, na verdade, para boa parte dos latino-americanos. Apesar da ambientação no país vizinho, a trama deve encontrar maneiras de se conectar com todo esse canto da América ao rejeitar o arquétipo da donzela europeia que já foi onipresente no estúdio.

Estreando agora, "Encanto" precisa de uma longa canção de abertura para dar conta de apresentar todos os membros da família Madrigal. O musical animado mostra como Abuela Alma, após perder o marido, com três filhos pequenos para criar, recebe um milagre - em forma de uma vela mágica, que ergue uma bela casa do chão e concede poderes a seus descendentes.

Luisa tem superforça. Isabela faz flores nascerem. Camilo assume a aparência de qualquer pessoa. Antonio fala com os animais. Pena muda o clima conforme seu humor. Dolores ouve até um alfinete cair. Julieta pode curar machucados com arepas e outras receitas regionais. Mas Mirabel, a protagonista, não ganhou nenhum dom.

Por isso, ela é uma espécie de patinho feio da família - até que a mágica dos Madrigal começa a rarear e ela parte, então, numa jornada para tentar salvar os pais, irmãos, tios, primos e a avó, que tantas vezes olharam para ela com desdém. "Eu via muitas telenovelas com a minha avó enquanto crescia, então eu tenho certeza que elas encontraram um caminho para aparecer no filme. Elas influenciaram a maneira como eu conto histórias, sempre dessa forma muito dramática", diz Charise Castro Smith, corroteirista e codiretora do filme, que tem ascendência cubana.

"'Encanto' é sobre família e, no centro do filme, há a pergunta sobre o quanto conhecemos nossa família e o quanto ela nos conhece. Nós queremos que as pessoas vejam esse filme com suas famílias e que percebam que, apesar de passarem pelas mesmas experiências, cada indivíduo as percebe de forma particular", completa a produtora Yvett Merino sobre o conflito principal.

Nessa trama de dezenas de personagens, picuinhas bobas e um amor pela família maior do que qualquer coisa, é fácil reconhecer um tipo de afeição muito característica dos latinos. Além de Castro Smith, vários funcionários com raízes na América Latina ajudaram a levar o filme às telas, como o chefe de animação Renato dos Anjos, que é brasileiro.

"Eu queria que o filme fosse bem específico culturalmente, que a gesticulação, a articulação dos personagens fosse bem parecida com a realidade, que houvesse proximidade nas interações", diz o animador. "E isso em computação gráfica é um tanto quanto difícil."

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