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'Minha ceia vai ser só arroz e feijão'

Guilherme Tavares
| Tempo de leitura: 3 min

Na geladeira, apenas duas caixas de leite quase vazias, potes de margarina no final e algumas garrafas d'água. Diante da situação, Elizabete dos Santos, 62 anos, se vira como pode para colocar comida não só no próprio prato, mas dos seis netos pequenos e do filho Welton dos Santos, 38 anos, que tem deficiência física. A menos de um mês do Natal, o cardápio da ceia não deve ser muito diferente do mesmo que tem sido servido nos últimos meses. "Vou ter só arroz e feijão mesmo. Nos outros anos, eu trabalhava. Sobrava um dinheirinho para comprar uma coisinha no Natal. Este ano não vou ter", lamenta a mulher, limitada depois de dois infartos e quatro hérnias de disco.

A situação dela é semelhante a de muitos dos seus vizinhos do Condomínio Chácara das Flores, no Fortunato Rocha Lima. Há cerca de cinco anos, as famílias em situação de vulnerabilidade de toda essa região são assistidas pelo Esquadrão do Bem e recebem uma cesta básica todo mês. O que antes era apenas um auxílio, virou principal recurso de alimentação de muita gente. Em dezembro, não deve ser diferente. Para o Natal, terão de contar com ajuda de entidades para assegurar, ao menos, o básico na mesa.

"Os preços aumentaram demais. Mercado pesa muito na conta. Carne vermelha então, nem pensar. Quando dá, compro coxa e sobrecoxa de frango, mas não é sempre. Ou eu pago a luz ou vou para o mercado. Tem que escolher", conta Elizabete, que vive apenas com o benefício de um salário mínimo recebido através do filho, que tem deficiência.

"Está difícil manter a alimentação. Tem muitas dívidas. Então, fica praticamente sem comprar nada, principalmente 'mistura', que é cara. Vivo mais de legumes", revela a vizinha de Elizabete, a pensionista Solange de Fátima Domingues, de 60 anos.

PÉ DE FRANGO

Com cinco filhos pequenos, o servente de pedreiro Fabiano dos Santos, 45 anos, complementa a renda recolhendo recicláveis. Os 'bicos' nas obras têm aparecido com menos frequência. "Está tudo muito caro. Tijolo que custava R$ 0,50 sai por R$ 1,00 hoje. Fica difícil aparecer serviço", diz. A família vive em um barraco no Fortunato Rocha Lima, em meio a goteiras, chão de barro e uma infinidade de objetos encontrados pelas ruas.

Antes de sonhar com o Natal, há, pela frente, o desafio diário de colocar comida na mesa. "Não sei como vai ser [a ceia]. Sem expectativas. Vou juntando reciclável para ver se compro, pelo menos, um pé de frango. Aí faz um molho, um macarrãozinho", revela o servente.

DIGNIDADE

Segundo Maria Inês Faneco, representante do Esquadrão do Bem, tem sido cada vez mais difícil manter as cestas básicas mensais porque houve uma queda grande nas doações. Portanto, o desafio de oferecer a ajuda regular e ainda complementar com um kit natalino ficou ainda maior.

"Que seja, ao menos, um almoço digno [na ceia], para sair do arroz e feijão. Essas famílias estão comendo só isso. Semana passada, ganhamos uma doação grande de ovos, parecia que estávamos dando ouro na favela. A miséria está muito grande", lamenta.

 

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