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A falsidade de cada dia

Rafaela Rosa
| Tempo de leitura: 2 min

Uma vez me disseram que meus textos só seriam lidos se eu os escrevesse em terceira pessoa. Mas confesso, o de hoje, só terá efeito se vocês compreenderem que quem conta é a mesma pessoa que viveu. Desde a infância sempre achei fundamental que as pessoas soubessem o que eu sentia por elas, sempre dizia para alguns que não gostava deles, e fazia questão de demonstrar meu afeto por aqueles que eram essenciais para mim. A dona Maria das Graças me deu muitos tapas na boca, puxões de cabelo e orelha, não a critiquem, esse era um dos métodos de educação utilizados na década de 90. Minha mãe tinha o jeito peculiar dela de me mandar engolir o choro e ficar quieta. Fui uma criança falante, e que também adorava ouvir histórias das pessoas mais velhas. Realmente acreditei que a sinceridade deveria estar sempre presente, e que ela iria assegurar relações saudáveis. Entretanto, na medida em que fui amadurecendo e sofrendo tantas decepções, percebi que para sobreviver precisaria seguir o conselho mais inusitado que minha mãe já me deu: seja falsa! Como assim, dona Maria? Logo a senhora que sempre disse que odiava mentiras? Mas quem disse que ser falsa é mentir? Há quem diga que sim, outros que não! Enfim, ser falsa com alguém me causa a mesma sensação que engolir pregos afiados e enferrujados. Eu que sempre fui a alma transparente e nasci com olhar que me condena e sempre mostra o que sinto, ser falsa parecia pior do que cometer um pecado imperdoável (seja ele qual for). Não foi fácil, tudo começou com um sorriso amarelo para alguém que falou algo que não concordei, seguiu de um "tudo bem", e no limite do caos, apenas silenciei. Nasci com sede de justiça, como se tivesse vindo ao mundo para mudar algo, não mudei, dificilmente irei mudar, e hoje sei que o sistema não suporta os sinceros. Para sobreviver nesta selva humana teremos que engolir o choro, os sapos, abaixar a cabeça e seguir o jogo. E depois de tanto tempo, quando vou reclamar pra minha mãe que não gostou de alguém, ela sorri e diz: seja falsa. Possivelmente, de todos os conselhos já recebidos, este é o responsável por eu ter conseguido atravessar o inferno e ter convivido com tantos demônios. Afinal, minha gente, sem inteligência emocional e uma dose de falsidade será impossível conviver em sociedade! Só que mais forte do que a falsidade que temos que exercer a cada dia, é a sinceridade quando podemos demonstrar o que sentimos. E no final, a energia nunca irá mentir. Sempre sabemos quem é de verdade e quem não é.

A autora é colaboradora de Opinião.

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