Tribuna do Leitor

Pai & filho: sobre doutrinação nas escolas

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. Dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 4 min

Filho: Hoje, pai, a aula foi sobre a "autonomia" do professor ao ensinar. Pai: Isto é questionável, filho! No mundo democrático e sujeito a leis, faz tempo que a "liberdade total" não existe. Não existe para o policial ao reprimir, para o professor ao ensinar, e nem pra rainha da Inglaterra! Isto ocorreu nos Países que optaram viver segundo leis democráticas, onde se estabeleceram regras de convivência que levam em conta os desejos do conjunto da sociedade, e não de apenas um grupo de pessoas que se julgam iluminadas.

Filho: Mas, pai, não é o professor que tem o conhecimento? Pai: Pode até ter, filho, mas o professor pode também ser conveniente nas aulas, usar meias verdades, realçar umas partes e ocultar outras. Isto é induzir ou doutrinar e não ensinar toda realidade do mundo!

Filho: Mas o professor não estaria realçando aquilo que gostaria que fosse, ou o que acha certo, pai! Qual o problema nisso? Pai: Cada pessoa tem sua preferência de mundo, filho, mas ele é de fato a miscelânea que ai está! Apesar das liberdades serem limitadas pelas leis, existe uma que defendo de modo integral, que é a do aluno poder escolher seu caminho e, para isso, é um direito dele ter uma visão ampla do que realmente acontece no mundo. Entretanto, ao invés de ensinar com a mesma eficiência e isenção, as vantagens e desvantagens dos vários sistemas sociais e econômicos, alguns professores batem sempre na tecla que todos os males da vida são causados pelo capitalismo, e que a saída pra isso é o socialismo.

Filho: Mas, pai, o professor diz que no capitalismo há muita desigualdade social, enquanto o socialismo é mais justo pois há distribuição igual da riqueza.

Pai: Ora, filho, o que seu professor diz é aparentemente correto e, por isso mesmo, ele é um "bom doutrinador". Vou te dar um exemplo simples que mostra uma diferença fundamental entre estes dois sistemas, tomando como exemplo os EUA (capitalista e democrático) e Cuba (socialista e ditatorial).

Na tão elogiada "igualdade socialista" pelo seu professor, todo "médico em Cuba" ganha cerca de U$ 80 mensais, enquanto que na tão criticada "desigualdade capitalista", é comum uma "faxineira nos EUA" ter seu ganho mensal entre U$1.000 e U$4.000, conforme seu empenho e qualidade. Qual sistema prefere, filho?

Filho: É, pai, tem razão! Mas, o professor também afirmou que o socialismo está evoluindo e criando riqueza, e deu como exemplo o chinês.

Pai: Mais uma embromação do seu professor, filho! Na China, note que não há: parlamento eleito pelo povo; imprensa livre; sindicatos dos trabalhadores; ..., indicando que ela continua com estrutura "nada democrática", similar ao socialismo, sendo soberano o PCC (Partido Comunista Chinês), ao invés do povo como ocorre nas democracias.

O que a difere dos outros Países socialistas, começou, em 1978, quando o líder chinês Deng Xiaoping mandou às favas o princípio da "igualdade", e mudou a econômica adotando um capitalismo controlado pelo governo. Entenda "capitalismo", filho, como um modo de gerar riqueza, através de múltiplos empreendimentos: o americano é "Capitalismo & Democracia" onde todos têm liberdade para empreender, e o chinês é um "Capitalismo & Estado" controlado pelo governo, e apenas membros do PCC são habilitados para empreender.

No chinês, cadê a igualdade para o povo, filho? Além disso, conforme o documentário "Indústria Americana" (ganhador do Oscar 2020), no capitalismo chinês se explora muito mais os empregados que no americano, uma vez que este fato está ligado a existência ou não, de liberdade e sindicados.

Filho: Mas este capitalismo chinês também não beneficiou o povo, pai?

Pai: Enriqueceu mais o Estado Chinês, e a parte da população ligada ao PCC que ocupa altos cargos nas empresas estatais chinesas. Grande parte do povo continuou pobre, principalmente aqueles ligados a agricultura. Enfim, a desigualdade social chinesa continua enorme, bem maior que a americana. Filho: Já que é contra a doutrinação nas escolas, o que sugere então, pai?

Pai: Que se fale a verdade de modo completo, filho! Para o ensino médio, que entendo ser mais grave devido se tratar de adolescentes em formação, vejo uma forma de estabelecer um primeiro passo.

Nas disciplinas que permitem maior doutrinação (História, Ciências Sociais e Econômicas, Interpretação de Textos, ...), uma equipe isenta ou sem viés ideológico, prepararia "material didático" que retratasse o que de fato existe no mundo real, como as vantagens e desvantagens dos vários sistemas sociais e econômicos.

Este material didático seria a referência bibliográfica para toda rede do ensino médio - inclusive para as provas do Enem. Se ocorrer isto, acredito que o avanço será muito bom e, por enquanto, me daria por satisfeito.

Comentários

Comentários