Articulistas

Antes de ler, verifique se o texto encontra-se publicado nesta página

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Isso mesmo. Acordo cedo e perturbo a íntima expectativa do que venha ser o dia. Sou os vincos da toalha da mesa de quem não tem o que comer, de quem reconhece a vida ser um desdobrável rompimento. Compareço sem aceno de hora. Provoco desmaios, vertigens, sou o grito da criança descalça da vila, barrigudinha de vontade de olhos expectantes; sou o molequinho com prato de barro na mão, enchendo a barriga grávida de vermes; sou a família de uma porção de gente; o resto do leite tirado que pinga no fundo da vasilha pra mãe de cinco filhos; o choro do bebê que cheira à boca sem leite; sou o que motiva a criança, sabendo da merenda, ir à escola; sou a campainha insistente que destrói o sono da classe média, sorte da burguesia que mora em condomínios.

Mantenho-me como um partido de homens partidos que, em ordem e progresso, avança pelo país. Sou a semeadura corrompida da colheita sabotada num país em que tudo se plantando se dá; coito interrompido das sementes derramadas; sou o comer com ganância de pobre em mesa de rico; vontade entorpecida; mão que sem afago afoga; continuo o que inicia sem fim de dias compridos; sou um credo - cruz credo! - da sorte versus azar; a doença instalada que amputa esperanças improrrogáveis; a paralisia de uma infância que se extenua em vômitos prolongados; sou a criança excluída do espaço kids; o cheiro esmaecido do descaso dos homens de paletó. Antigamente conseguia impressionar com números na exatidão porcentual. Jornais e tevê disputavam-me. Era ibopeado. O tempo passou, tornei-me pauta e ponto de exclamação com a palavras de forte musculatura. Tribunas e púlpitos acenavam-me em comoventes discursos. Alguns até hoje me abusam como recurso eleiçoeiro; outros, em nome do Pai, agiotam minha ausência com promessas ressalvadas na fé mercantil. Farisaísmo! Percebendo certa normalidade, busquei - click! - incômodo social na fotografia. Preto no branco, olhos encovados, crianças desnutridas, desassossego aborrecedor.

Na literatura, fiz você imaginar minha capacidade larga na voracidade de um bicho que, sem cheirar e examinar, cata comidas entre detritos; o bicho, leitor, é um homem. Fico no chão. Sei quem nasceu pra ser beirada. Sou a rima premeditada: doença ou marca de nascença; a miséria transmitida hereditariamente, a metástase, a menina que troca sexo por comida, o quarto de despejo da Casa-grande. Comigo, os dias se consomem em drágeas, drogas e dreams. Assim, minha fuligem, meu cheiro fétido agridem o perfume importado de salto alto. Nos shoppings, ganho atenção de olhos vigilantes. Com balas e pirulitos, sei bem convocar papai Noel a sorrir vermelho-branco as promessas guardadas pelo cristianismo salvador. Jesus Cristo ama os pobres, diz a história sagrada; devo, pois, fazê-lo feliz com o amento de miseráveis pelo mundo. Toda essa gente pra acompanhá-lo no paraíso, muita gente. Natal é triste, me abraçam com mansuetude de mãe boa e tão logo me evitam com olhares e ouvidos voltados aos rumores do mundo.

Sou o insustentável deste país, incapaz de manter sua integridade, quando um de seus estados, Rio Grande do Norte, convive com mais de 370 mil famílias em estado de extrema pobreza, maior patamar de uma década. Sou o novo normal da fila do osso, o silêncio da cidade pequena às injustiças sociais. Cuspo sangue na cara da lei, sou palavra gilete, antivaselina, porrada. Prazer, sou a miséria moral e física.

O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa.

Comentários

Comentários