O grande volume de chuvas das últimas semanas tem prejudicado muitos produtores rurais da região, os quais ainda amargam dificuldades da severa estiagem e das geadas que atingiram boa parte do Estado no ano passado. Com a alta umidade do ar e o solo encharcado, muitos alimentos, especialmente hortaliças, sofrem os impactos, elevando os custos de produção e, consequentemente, o preço para o consumidor final.
De acordo com levantamento do Instituto de Economia Agrícola (IEA) de São Paulo, alguns alimentos mais que dobraram de valor nos últimos anos. Muito presente na mesa do brasileiro, a alface, por exemplo, registrou aumento de 135% entre 2019 e 2021. Antes, o engradado de 10 quilos era negociado a R$ 16,75, mas no final do ano passado fechou a R$ 39,37. No mesmo período, o repolho saltou de R$ 22,67 (saco de 25 quilos) para R$ 45,18, ou seja, alta de 99,2%.
"Ano passado foi muito difícil para o produtor. Foram três geadas seguidas e, logo depois, uma sequência de seca. Depois, a chuva demorou para vir e, quando veio, chegou nessa quantidade absurda", avalia Renato Theodoro Delgado, assistente de planejamento do escritório da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Bauru.
Na horta do Leandro de Almeida Serpa, em Piratininga (21 quilômetros de Bauru), praticamente todas as folhosas sofreram com o clima extremo de 2021. "Tivemos um prejuízo enorme, principalmente por causa da geada. Cheguei a perder 80% da produção", lamenta. Recentemente, novos estragos. "Tinha me preparado para o verão, instalei sombrite em toda a horta, mas a tempestade da semana passada arrancou tudo", conta o agricultor, já contabilizando cerca de 50% de perdas na atual estação.
As chuvas também têm atrapalhado o trabalho de Lúcia Helena Gaio, produtora de alimentos orgânicos em Bauru, como alface, chicória, almeirão e rúcula. "Nós temos uma programação semanal de plantio. Mas com esse tanto de chuva não dá. Você prepara o canteiro, dali a pouco vira barro", reclama. Ela afirma não conseguir repassar todos os custos de produção. "Como estamos no mercado há 20 anos, vamos levando. Mas produzir alimentos tem sido muito difícil", diz Lúcia.
'CLIENTE NÃO LEVA'
O produtor rural Benedito de Oliveira tem amargado prejuízos com diversos produtos nas últimas semanas. A preocupação mais recente é com o tomate. "Quando chove muito, ele fica manchado, o cliente não leva", afirma. Ele tem uma plantação em Duartina (45 quilômetros de Bauru) e comercializa a produção na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). "Se chover mais uns três dias, a caixa vai dobrar de preço", diz o produtor. Até frutas, como o maracujá, estragam com a grande quantidade de chuvas.
É o caso da plantação de abacaxis de Armando Yoshira. A família dele cultiva a fruta há mais de 40 anos em Piratininga. "Ano passado perdi 60% com as secas e as geadas. Se não chove, o pé não desenvolve. Agora está chovendo demais, mas a fruta ficou pequena, não vai crescer mais do que isso", conta o agricultor. Diante de um cenário de alta de insumos e dificuldade em repassar preços, ele cogita abandonar a tradição. "Está muito difícil. Estou avaliando, talvez fique só com soja e gado".